Sigarowane: O corvo  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

CERTAvez estava sentado na varanda que dá para a grande avenida dos “mayloves”,sobretudo nas primeiras horas de dias de semana, e de outros motores de todos os calibres. Na mezinha, de tampo de vidro, estava colocado um prato contendo uma maçã verde fatiada. Um garfo de dimensões pequenas, mesmo para fruta. É geralmente o que faz de pequeno almoço depois de uma chávena de chá de limão. É menos caro e mais saudável,embora não pareça. Na mezinha estava lá,também, um título do Eça,há muito lido e relido e daquele vez outra vez escolhido para essa manhã sabadeira. Um telefone, não ia perder saudações ou eventuais convites para charutos e runs para lembrar os deliciosos daiquiris amansadores da alma. Engolidas já lá iam duas fatias e dois cabrões ou cabronas em voo razante carregaram com as restantes fatias da maçã e no telhado puseram-se a degustar exibidamente e ainda não passou o espanto, o pavor até. Mas depois veio o sorriso de contentamento: àquilo se chama coragem, garra e determinação. Não iam, elas, passar fome quando alguém que tinha mais do que comia…

Tinha ouvido contar do Fernando que certa vez, na Inhaca, sacaram um prego na mão do filho e foram se alimentar. Voltaram depois e abriram a torneira de água para ajudar a empurrar a farinha de trigo e a carne já em suas barrigas e á custa da sua astúcia. Parecia uma gozação já que se estava,também, a gozar com um indiano amigo. E as aves são indianas. Se comestíveis ou não estes corvos, não é cá sabido, mas pela prática são como quaisquer aves,simplesmente mais agressivos e nada respeitadores de coisa nenhuma. Talvez no seu meio…

Na zona, a frequência do corvo de gravata branca era sistemática, mas quando o corvo indiano invadiu o território, conquistou-o e o declarou de seu domínio exclusivo, o corvo de gravata branca desapareceu.

De sorte que um dia, sentado na mesma varanda, um não avisado alcançou o território sob o domínio do corvo indiano e de imediato um dos conquistadores do seu galho se elevou pelas alturas e pôs-se a voar por cima do corvo de gravata branca ferrando-o violentamente na cabeça. Um Segundo foi juntar-se para o combate ao “invasor”que voava no sentido norte a procura de eventual socorro. Nunca se soube como terminou a cena. Se acabou caindo sem vida, ou se os dois corvos o deixaram seguir para uma eventual solidariedade, que compreendesse até a busca de curativos, que as ferraduras foram tamanhas. Talvez entregue a outro grupo de corvos indianos que dominavam a zona do Bairro dos Pescadores e arredores. Aliás, certa vez, sentados a pescar num dos dois tanques do Hermínio, com as taças de vinho a reclamarem uso, um corvo indiano foi a outro tanque e delá sacou um peixe e depois foi poisar nas linhas de transporte de energia a exibir a presa. Pouco tempo depois estava alium bando a sobrevoar o tanque procurando o momento de investida e pouco se preocupando com a presença humana alipertinho.

Uns abusados,estes corvos, era o que se ouvia cantar no desespero.

O dono da casa foi trazer uma caçadeira, mas não lhe deram tempo para levantar o cano. Mal viram a espingarda puseram-se em fuga, mas sem largarem os peixes seguros pelos bicos, pelas bocas. Voaram no sentido Sul e ao longo da baía. Tinham a refeição para o dia. Conta o dono da casa que desapareceram por cerca de ano ou pouco mais, mas que depois foram reaparecendo. Pode até ser outra geração não sabida de existência de espingardas naquela quinta.

Naquela zona também o corvo de gravata branca foi corrido. Foi eliminado pois o outro corvo comia-lhe até os ovos,impedindo, assim, a sua reprodução.

Mas daqui nunca saíram. Ou melhor, nunca deixaram de frequentar aquele lugar das latas de lixo. Nunca foram assustados nesse perímetro, que na parte frontal,onde abusavam, deixaram de a frequentar desde que viram umas metralhadoras em número bastante.

Nalgum momento deixou-se de pensar no corvo de gravata branca e na tranquilidade com que fazia a sua catação nas latas de lixo. O corvo preto passou a ser o nosso corvo, embora com hábitos malandros,embora as novas gerações sejam cada vez menos.

Tão de repente e a meio da tarde, no lugar das latas de lixo estava lá um corvo de gravata branca no meio de outros pretos. Estavam em assombrosa harmonia, cumplicidade e se calhar intimidade.

Mas que tipo de corvo poderá resultar?

O corvo indiano já não é indiano. É moçambicano.

E porque não a mistiçagem neste campo?

Daquelas caixas se alimentam todos.

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