Director: Júlio Manjate

NUM'VAL PENA: Bacar Makutando, eu?!  (Leonel Abranches)

 

 

O tipo parecia um boxeur. Queixo quadrado e de feições atarancadas. Altura mediana, escuro quanto baste e dono de umas mãos estranhamente enormes. Espadaúdo. Um autêntico gorila. Com um andar apressado, o “gorila” sulcava a baixa da cidade de Maputo, parecia preocupado. Distraído, tropeçou num enorme pedregulho, tentou evitar a queda mas, com um descomunal estrondo, caiu de bruços desamparado de encontro a um daqueles painéis publicitários coloridos que povoam a baixa. Aqueles painéis que fazem o deleite dos transeuntes, que ficam horas a fio babando-se incrédulos a “televisionar” a publicidade que os fará embarcar para “shoppings” e “bottle stores”. De onde sairão com os bolsos meticalmente despovoados e raquíticos.

O tipo jazia ali caoticamente caído, inerte sem que ninguém ousasse socorrê-lo. Parecia um homem em estado de morrência absoluta. As pessoas, essas, moçambicanamente solidárias, passavam e fingiam não ver o morrente. Parece que as pessoas hoje, imbuídas de catalisadores metafísicos, têm medo de tudo. Desconfiam de tudo. Até da própria sombra. Parei e olhei para o gorila-boxeur em fase de pré-falecimento. Tentei perscrutar se ainda estava no mundo dos vivos. Regressou do falecimento prematuro e desabotoou um olho, o esquerdo, e depois o direito. Abriu e fechou a boca num compasso rítmico estranho, dir-se-ia que tentava esculpir algumas palavras. De repente, desatou a rir. Primeiro com um sorriso enigmático, depois avançou para uma gargalhada metálica, funesta e arrepiante.

- “O senhor está bem?”perguntei, meio receoso.

Olhou para mim de alto a baixo. Não respondeu. Voltou a gargalhar metalicamente. Virou para a esquerda, apoiou-se numa carrinha de venda de “King Pie”. Olhou para o surpreendido vendedor e apontou para interior da carrinha:

- How much isso?”– murmurou entredentes.

- “Não percebi mais velho…” – respondeu o vendedor, desconfiado. O boxeur rilhou os dentes de um castanho-acinzentado, com as saliências acidentadas e ripostou ameaçador:

- “Quanto custa essa cena puto?”

- “85 mais velho”,respondeu o “puto”, arrastando a carrinha vagarosamente, obviamente tentando furtar-se do diálogo com o ex-falecido.

- “Dá-la dois de queijo e um de galinha e mais duas Coca-cola bem geladas faxavor.” Ante o olhar desconfiado do rapaz, o homem disparou:  - “Dá-la isso pá, o meu amigo Bacar Makutando paga sem problemas”, disse olhando satanicamente para mim.

“Bacar, paga-lá isso amigo.”Fiquei petrificado, o tipo só podia estar mesmo com a tola desgovernada.

- “Bacar, eu?!Olha amigo, deve estar equivocado. Não sou Bacar. Na verdade só parei mesmo para saber se está tudo bem consigo. Vi-o tombar e bater violentamente com a cabeça no poste e…”

– “O que é isso Bacar?! Continuas com aquela tua mania de falta de identidade? Você não muda mesmo pá!”e, com uma feroz dentada, sulcou o primeiro “King Pie”, que acto contínuo se desfez no arruamento dentário do homem. Engoliu o empapado alimento, sugou de um trago uma das Coca-cola e virou-se para a pequena plateia de mirones que entretanto se foi formando:

- “eu e este gajo aqui, o Bacar, estivemos juntos na Rússia, fomos formados como pilotos de “migs” por aqueles russos, epa, os gajos são bons nessa cena de aviões de guerra!! Andamos a metralhar os matsangasjuntos, já  te recordas Bacar?”- A plateia meneava as cabeças em jeito de aprovação e sobretudo de curiosidade das façanhas aéreas contadas pelo comedor-mor de “King Pie”. Afinal estavam de caras com um herói de outros tempos. Aproveitou a “deixa” e começou a narrar episódios burlescos, contava com tamanha exactidão, até ao detalhe. Era mesmo um filme. Com efeitos especiais. O público vibrava. Aplaudia. Desancou o segundo “King Pie” e continuou a saga do piloto que metralhou “matsangas” por Gorongosa fora e salvou povoados inteiros. Ele era o artista do filme. Daqueles que nunca morre. Sorrateiramente afastei-me do rebuliço e procurei pelo vendedor de “King Pie”. Paguei a conta do boxeur-piloto e raspei-me. Ainda o ouvi chamar-me de longe:

”Bacar….Bacar Makutando….”. Definitivamente o fulano “queimou os fusíveis”. Só não sei se já estava assim antes da queda.     

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