Director: Júlio Manjate

Acento tónico: E a tua rua, tem nome? - Júlio Manjate

Estava de regresso ao país e carregava um cansaço de muitas horas mal dormidas em mais de dez horas de voo, na sempre (des)confortável classe económica. Talvez por isso mesmo, todos aqueles procedimentos de assistência em terra pareciam aborrecidos, incluindo aquele teste que o pessoal da saúde faz com um aparelho apontado à testa, e aquela infalível fila para carimbar o passaporte…

E foi mesmo na fila para carimbar o passaporte que me dei conta da maneira primitiva como continuamos a lidar com algumas coisas, em pleno Século XXI.

Tinha preenchido aquele pequeno formulário de chegada, habitualmente exigido pela Migração, ao qual juntei o passaporte e entreguei à funcionária quando chegou a minha vez.

A agente agia sem pressa, e parecia muito rigorosa. Descontraída, virava e revirava as páginas do passaporte, como que à procura de algo em particular… Pegou o carimbo e, quando parecia que ia finalmente autorizar o meu regresso à casa, parou tudo e disse:

- Morada!? – Disse isto enquanto me devolvia o passaporte e o formulário.

- Não entendi… - respondi com ar de preocupado. Na verdade estava a fazer muito esforço para me manter calmo. O atendimento estava a ser lento e aborrecido…

- Morada! Tem que por a morada completa aí. Não basta escrever bairro de Nkobe. Qual é a rua? Número da porta? Esses campos aí devem ser preenchidos… - explicou a agente.

- Minha senhora, a minha rua ainda não tem nome. Só sei que vivo no bairro Nkobe e o número do quarteirão, que escrevi aí… No meu bairro as ruas ainda não têm nomes… - expliquei a senhora que, ainda assim, não pareceu convencida.

- E então quem me garante que o senhor vai mesmo a este bairro?... – insistiu a mulher. Sem me dar tempo de avançar com qualquer outra explicação, carimbou o passaporte e devolveu-mo sem sequer olhar para mim… Recolhi e sai, sem lhe dar aquele recomendável “obrigado”!

Desde aquele dia, nunca mais parei de pensar no assunto: Nomes para as ruas, praças e outros lugares públicos dos nossos bairros!

De facto, são muitas as circunstâncias da vida em que somos obrigados a preencher formulários para aceder a este ou aquele serviço. Temos formulários para sermos admitidos como doentes num hospital; para abrir uma conta bancária; para transferir dinheiro; para matricularmo-nos nalguma escola; para contrair matrimónio; para meter uma queixa na Polícia ou na Procuradoria; para formalizar um emprego, enfim, anda muito formulário à nossa espera por esta vida fora.

Ora, invariavelmente, depois de preenchermos tudo o que tem a ver com filiação, estado civil, habilitações literárias, naturalidade etc., etc., damos de caras com um campo onde nos pedem morada. Aí damo-nos conta de que, afinal, não temos nenhuma referência específica sobre a localização da nossa residência, uma indicação que possa ser usada por qualquer um para se orientar até chegar ao nosso domicílio, em caso de necessidade.

O nome da rua é, se calhar, o mais importante, já que a árvore grande amanhã pode ser cortada; o portão verde amanhã pode ser preto, o muro da esquina pode ser derrubado, ou seja, o que hoje parece uma referência válida, amanhã pode não existir…

A grande maioria da população urbana do nosso país vive em bairros novos, de expansão, alguns dos quais com água canalizada, energia eléctrica, linhas de televisão por cabo e sumptuosas casas de alvenaria, mas muitas ruas, até mesmo as asfaltadas, não têm nomes! Não há como levar a ambulância até à casa; como fazer chegar uma notificação da Polícia ou da Procuradoria, uma carta ou encomenda. O pior é aquele embaraço que fica sempre que preenchemos esses formulários, e deixamos campos em branco como se não tivéssemos certeza de onde vivemos.

Os bairros têm uma história que pode ser grafada nos nomes das ruas. 

É responsabilidade das autoridades municipais suprir esta lacuna que destoa o sentido de crescimento urbano. As assembleias municipais até podiam “pressionar” os conselhos municipais, estabelecendo metas de cumprimento obrigatório em termos de actualização da toponímia.

Uma coisa é certa, não pode parecer normal que as ruas e outros lugares públicos nas nossas cidades permaneçam anónimas, como se não fosse importante nem urgente atribuir-lhes identidade; como se não fosse necessário escrever a história por trás da sua existência. 

Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

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