Director: Júlio Manjate

Acento tónico Desculpa(s) esfarrapada(s): Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

ACONTECE muitas vezes. São raras as vezes em que entramos num “chapa” e não sofremos isto na carne ou pelo menos testemunhamos episódios do género. Na busca desesperada por uma posição menos desconfortável, alguém nos pisa, propositada ou despropositadamente, e a seguir diz: “desculpa”.

Dependendo da intensidade com que a pessoa nos tiver pisado ou do dano que tiver causado ao brilho do nosso sapato, tanto podemos desculpá-lo e deixar que ele continue a “fazer das suas”, ou então “fazermos questão” e daí nascer uma daquelas discussões insanas, características do “chapa”, que geralmente terminam com frases pouco elegantes como “você não é nada!”. Aqui, está em jogo o sentido e reconhecimento que damos à palavra “desculpa”, e a profundidade e relevância que conferimos ao pedido.

- Desculpa o quê, pah?! Tens que ter mais cuidado, meu!?

Mas noutras vezes a reclamação do ofendido pode ser em dose de profunda reprovação:

- Desculpa o quê, você também? Tu não viste o meu pé? Já não bastam os empurrões? Tu andas aqui dentro como se estivesses na tua casa? Ou é para aproveitarem nos roubar?

Geralmente, quando o problema é colocado nestes termos, a única coisa que fica garantida é uma discussão daquelas de estontear o ambiente, sobretudo quando começam a desfilar argumentos do tipo:

- Se não queres ser pisado, então aluga um táxi… 

Quer dizer, se no passado podíamos usar a palavra “desculpa” com a certeza de que ela vai produzir o efeito desejado, nomeadamente o perdão que esperamos por quem tenhamos ofendido, hoje em dia pode ser arriscado pedir desculpas a alguém, não sabendo o entendimento que terá do termo.

E foi exactamente por causa desta metamorfose semântica que hoje decidi falar da “desculpa”, uma palavra que conheci mágica e que durante muitos anos representou o que de mais nobre mora no coração de um ser humano: a capacidade de reconhecer um erro, de se arrepender e de agir com cuidado suficiente para que, no futuro, situações do género não se repitam.

Hoje, assistimos ao esvaziamento do seu conteúdo, da sua importância, da sua relevância, do seu papel na regulação das relações entre humanos. Assim mesmo, com a “desculpa” na ponta da língua, alguém te pisa, por arrogância ou mero egoísmo; atrasa escandalosamente ou falta a um compromisso por razões pouco convincentes.

É também por confiar na borracha que parece ser o “peço desculpas”, que um condutor decide cortar prioridade a outro, originando acidentes; que um “txova” raspa a tinta metalizada de um Lexus ou quebra o stop de um Benz; que o “chapeiro” pára em plena faixa de rodagem para embarcar ou desembarcar passageiros, embaraçando o trânsito; que um jogador entra duro num lance, e coloca em perigo a integridade física do seu adversário; que um estudante prepara minuciosamente uma cábula para levar à sala de exame, no lugar de investir o tempo estudando a matéria; que um cônjuge parte para uma traição ao seu parceiro sabendo do desgaste que isso causará à relação, enfim... Fica a parecer que dizer “desculpa” justifica até o mais premeditado e execrável dos crimes…

Por causa da magia desta palavra, já há muitos a ficar arrogantes:

- Não te pedi desculpa? Tu nunca pediste desculpa na vida?

E parece-meter sido aqui onde começou o desgaste semântico da palavra “desculpa”.

Há dias vi, num dos canais de televisão da praça, um suposto gatuno a prantos, implorando perdão por algo que fez consciente de que lhe custaria muito caro se fosse apanhado, como acabou sendo.

O sujeito gritava, pedindo “desculpas” e jurando que não mais voltaria a usar os mesmos métodos para conseguir as coisas.

Com a palavra “desculpa” cada vez mais vazia de conteúdo, ficou difícil saber se o pedido de “desculpa era dirigido aos cidadãos que o tinham sob controlo naquele momento, ou se à vítima do roubo de que era acusado. Seja como for, escusado será dizer que aquele pedido não tinha peso, nem relevância, um exemplo claro do quanto pedir desculpa virou coisa banal!

Espero que amanhã não tenhamos que ouvir indivíduos como Mariano Nhongo ou outros que andam aí pelas matas a emboscar seus semelhantes virem a público dizer “peço desculpas”, pensando que isso será suficiente para apagar a dor e as mágoas que os moçambicanos vão acumulando por estes dias…

Estamos atentos!

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