Director: Lazaro Manhiça

Acento Tónico: Debate parlamentar sobre Dezembro e Janeiro - Júlio  Manjate

FIQUEI aqui a pensar se não seria interessante desafiar os deputados da nossa Assembleia da República a terem um tópico inusitado para debate, logo depois que tomarem posse, na próxima segunda-feira. Gostaria que discutissem, sem barulho nem apupos, a viabilidade de, em Moçambique, trocarmos a denominação de alguns meses do ano, mantendo tudo o resto inalterado.

Explico-me: passaríamos a chamar o mês de Dezembro de Janeiro, e o Janeiro de Dezembro. A ideia é ver se aproveitamos algumas atitudes que as pessoas têm, que na minha opinião têm a ver com o facto de estarmos em Dezembro ou em Janeiro.

Por exemplo, quando chega Dezembro, as pessoas tendem a pensar que têm muito dinheiro (pior quando recebem o 13.°!), e que o mesmo deve ser gasto na pândega em que geralmente se tornam as semanas festivas do Natal e do final-de-ano.

 Ora, se Dezembro se chamasse Janeiro, talvez as pessoas pensassem diferente, caíssem na real, e descobrissem que, de facto, elas não têm o dinheiro que querem gastar, tal como acontece agora, depois da pândega, quando descobrem que não têm dinheiro para colocar a despensa em dia, para equipar as crianças para a escola, para pagar a conta de água, energia, televisão, para recarregar o telefone e ainda sobrar para beber pelo menos uma cerveja ou um vinhito na sexta-feira ou sábado.

Se Dezembro se chamasse Janeiro, as pessoas seriam mais comedidas. Comprariam o estritamente necessário, mas festejariam, na mesma, o Natal e a passagem de ano. Comprariam presentes mais à medida das suas capacidades financeiras. E mais, só o fariam se isso fosse, de facto, necessário. Saberiam partilhar um frango por seis, não aquela extravagância de um boi por pessoa, como fazemos agora que Dezembro se chama mesmo Dezembro.

Depois, em Janeiro já se chamando Dezembro, as pessoas podiam explodir de alegria, mas no sentido contrário, não para terminar mas para começar o ano com a moral e motivação em alta. Os músicos, por exemplo, gravaram músicas dedicadas ao início do ano, e não ao fim… assim não causaria nenhuma dor no peito pagar as despesas que são características de quem quer começar algo como um ano.

Afinal sabemos que para uma casa ser consistente ou resiliente, como se queira, para ser capaz de aguentar os embates da natureza ao longo do ano, precisa ter uma base sólida. Pensando assim, será mais fácil compreender que a criança precisa mesmo de ter dois pares de fardamento para poder mudar, apresentar-se sempre limpa e decente na escola; que é melhor comprar todos os livros que ela necessita, de uma só vez, e não deixar para um depois que, com o ano a crescer, nunca mais chegará.

Eventualmente assim será compreensível que algum vizinho te venha pedir mil meticais emprestados, pois o mais provável é que esse dinheiro seja mesmo para comparar o material da criança, e não para alimentar a babalaza das festas… a minha luta, de facto, é aproveitar a maneira como as pessoas pensam, para fazê-las agir diferente, mais de acordo com o que elas de facto são.

 Andei pensando tudo isto depois que um amigo veio bater-me à porta, ontem de manhã, pedindo um empréstimo de dois mil meticais, “para resolver um pendente”, e que me devolveria, com juros de mil meticais, quando recebesse o 13.° que, segundo me disse, será pago antes do dia 20 de Janeiro.  Imaginem se teria tido a mesma coragem se este mês se chamasse Dezembro.

O que o meu pobre amigo não sabe é que, já na sexta-feira, dia 3 de Janeiro, a esposa pedira idêntica ajuda à minha parceira, colocando exactamente as mesmas condições.

E foi por saber desta situação, e por me lembrar que este mesmo casal passou o Reveillon num dos hotéis mais badalados da praça, com direito a um Moet para rebentar à  meia-noite, que o meu amigo não conseguiu tirar-me um centavo sequer. Contei-lhe um longo filme à Hollywood, para no fim dizer a seco: não tenho taco, brother!

E ontem levei as minhas crianças a comprar fardamento escolar e os livros de que vão precisar ao longo do ano. Sei que esta história é  igual a muitas pelo país fora, mas esta tem o sabor de ser apenas baseada em… ideias. Por isso, qualquer semelhança,  é  mesmo mera coincidência.

Seja como for, vou mesmo juntar assinaturas para ver se viabilizo o projecto do debate parlamentar sobre Dezembro e Janeiro. Na verdade, no fim do dia quem vai sair a ganhar são os moçambicanos que passarão  a ter de pensar diferente... por força da lei.

E não me parece nada complicado. É só passar a chamar Dezembro de Janeiro, e Janeiro de Dezembro, mantendo tudo o resto na mesma.

Que tal, topam?

Para a semana eu volto!

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Júlio Manjate

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Administrator: Cezerilo Matuce

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