Director: Lázaro Manhiça

Retalhos e Farrapos: Amanhã vou urinar no manual de história (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

ESTRANHAMENTE, chove em Chisinau. A cidade está tímida, as ruas, pálidas, a brisa gelada estremece a alma das avenidas. Fevereiro é um mês triste. Os dias são mornos. Neste momento queria estar num dos 19 parques da cidade verde, a ler um dos poemas de Pushkin. Já me vejo a declamar os versos do meu escritor preferido,as crianças que apreciam a calmia dos jardins. 

“Com o espírito morto de sede,

Rojo-me num deserto escuro,

E voa um anjo de seis asas

Na encruzilhada dos meus rumos.

Com dedos leves como o sonho

O Serafim toca-me os olhos:

Uns olhos profetas se abriram

Como os da águia assustada”.

Lia em voz alta o poema “O Profeta”.

A minha cidade foi reconstruida, mas ainda se recente, são grandes e não saram as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial. Já perderam a beleza os edifícios idênticos, tão semelhantes, que me perdia, andava círculos, à procura da casa do meu tio. Apesar das marcas da carnificina da guerra, ainda é possível apreciar o inestético estilo soviético.

Queria estar na rua, a sentir o cheiro das folhas do limoeiro e das frutas dos castanheiros. Queria estar só, ler os versos, a contemplar o silêncio, a calar a pobreza estrema deste pedaço de terra, que os esperançosos teimam em chamar de nação. Falta tudo aqui. Quando mais novo queria abandonar o país na primeira oportunidade. Até o fiz. Longe da minha pátria natal, acumulei riquezas e hoje produzo o vinho, que um dia fez Gargarim, em 1966, descer àcave e retornar das profundezas,dois dias depois.

A pobreza legitima ditaduras, prolifera boatos, dá luz a sistemas repreensivosque nos fazem odiar política. A revolta anda à flor da pele. Na Moldávia os jovens são mal remunerados e o nível de vida é caro. Eu tive sorte, mas para pessoas da minha idade é ainda mais difícil. As poucas forças que lhe restam são para tratar da casa e das hortas que lhe fornecem alguns alimentos.

Estou farto de viver do passado. Amanhã, quando a chuva passar, vou fumar cigarros no Stefan cel Mare. Quero ver a fumaça a pairar no ar e calmo, quero acender os manuais quepropagam a lavagem cerebral de sempre. Mas antes de fumar no meu parque preferido, quero beber um vinho vagabundo, feito das piores uvas, para destilá-lo e transformá-lo em urina para regar as cinzas dos livros de história que quero queimar.

Mas hoje estou feliz, voltei a ganhar o gosto pela leitura, reapaixonei-me pela poesia de  Pushkin. E para terminar o meu relato, deixem-me dizer que estou mesmo feliz, pois, há dias que pensava em escrever a crónica. Consegui dizer parte do que sentia, apesar de ter uma ferida no dedo.

Agora chegou o momento final, aquele que mais gosto, a hora de escolher o título. Estou indeciso, penso que será: “Os blocos de notas de Nemerencoi Jean Lurco”. Não, acho melhor que seja “O diário de Lurco”, assim meus conhecidos saberão que fui eu quem escreveu.

Há dias escrevi um texto e partilhei, por e-mail, com um amigo que vive na  Transnístria. O texto tinha o título: “Relatos de uma Europa Pobre”, mas ele me deu uma sugestão que assentou muito bem e o texto mudou de título, ficando: “É triste visitar a casa da avó”.

Já divaguei de mais, verei o melhor título depois de colocar o ponto final. Mas sabem, estou com uma vontade estranha de urinar, mas vou aguardar para amanhã. Espero que não chova.

 

Do vosso cronista, Lorco.

Fevereiro de 2011.

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