Director: Júlio Manjate

NUM VAL PENA: Crises de identidade - Leonel Abranches

ÀS vezes me espanto comigo mesmo. Meto-me a falar de um assunto de que pouco entendo ou mesmo patavina. Apalpo terrenos, alguns lamacentos e escorregadios, ainda que a crítica, muitas vezes sincera, mas também às vezes cínica e tacanha, me encha de palmadinhas às costas.

Já ensaiei o verbo pelos corredores do desporto, dancei ao som da crítica dos pandza e dos massinguitizadores e coisificadores de mulheres, mas também bebi o elixir sorumbático do jazz fusion, não antes de ter experimentado odisseias desgastantes pelos labirintos pontiagudos da política e ter protestado contra homicidas confessos da língua portuguesa nas nossas estações televisivas. Abordei e elaborei sobre toda uma panóplia de assuntos sociais.

Enfim, começo a considerar-me um marujo de quatro costados. Pois então, não é que hoje decidi falar sobre economia? Obviamente que o espelho da minha abordagem não será dado a partir de números e gráficos chatos.

Tentarei apenas olhar para o caso particular da “invasão” da nossa privacidade comunitária e da nossa sociedade, como resultado, penso eu, do quadro doentio e de pobreza em que vivemos.

A contínua política de mão estendida nos torna dependentes de instituições financeiras, que aterram no nosso sagrado solo com planos brilhantes, mas nem sempre práticos, pois os chamados programas de socorro financeiro em países em crise deixam a desejar, na medida em que socorrem a economia, mas não protegem os pobres e são eles quem mais sofre com as consequências de qualquer crise económica. Que o digam os “tugas” a contas com a deselegância moral do FMI.

Sem eufemismos e falsas modéstias: o Terceiro Mundo está a ser neocolonizado. Infelizmente. Porque a população mundial, principalmente “malta nós”, nos dias actuais, está envolta na teia da globalização, esse fenómeno que invade fronteiras, modifica costumes, constrói e (sobretudo) destrói mercados com a sua nova dinâmica. A nossa sociedade, a moçambicana, não foge à regra.

Vivemos aquela equação socialmente desestruturante: ao mesmo tempo que cresce a desigualdade social das populações, o Estado-nação vai ficando cada vez mais debilitado, perdendo as suas mais nobres funções, começando com a dominação económica através das "ajudas" das instituições financeiras e de países ricos.O Estado-nação perde a sua própria identidade, daí o triste cenário em que abrimos o jornal e os anúncios dolosamente, e sobretudo “dolarmente”, nos indicam que perdemos o sentido nacionalista. Já não somos donos de nós mesmos. Temos as almas por emprestado. Sob o pretexto da integração internacional, fazemos parte de conglomerados transnacionais poderosos que nos comandam e descomandam, decidindo sobre o câmbio, taxas de juros, rendimento de poupança, dos investimentos, definhando cada vez mais ainda a nossa moeda. Enfim, decidindo e definhando a nossa vida. E com a identidade pervertida e revertida.

Longe vão os tempos em que a cultura, a economia e a política só existiam em razão do seu território. Portanto, o território pertencia aos seus moradores, criava-se uma identidade entre as pessoas e o seu espaço geográfico. Formava-se um conjunto indissociável entre a política, economia, cultura, criando-se a grata ideia de comunidade. Infelizmente, a globalização marca de forma mercenária a ruptura desse processo de identidade entre território e comunidade. Nós já não somos uma comunidade, estamos ao serviço dos mais fortes. E isso não é mau apenas para nós. É mau para todos. Para eles também.

Como reverter esse cenário?

Não me perguntem, não sei.

 

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