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Categoria: Opinião & Análise
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Acento Tónico: Nossas línguas, nossa riqueza - Júlio Manjate(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

Fico muito empolgado cada vez que ouço aquelas mensagens contra o novo coronavírus a serem destiladas na rádio pública, em línguas que me soam familiares, todas elas!

Quando não tenho ninguém por perto, para comentar o quanto me faz bem ouvir aquelas mensagens em várias línguas, esboço um sorriso e fico tentando articular sílabas e a reproduzir algumas frases, mas acabo quase sempre perdido na imensidão do país e das línguas com que ele se comunica.

Engraçado mesmo, é perceber o quanto as línguas moçambicanas se conectam nalgum momento. Na sua fonética ou até na sua significação. Estas similaridades despertam uma paixão tal pelas línguas, que alimentam a confiança no poder que elas têm de fazer a mensagem chegar mais longe do que a gente imagina. 

È aqui onde está a razão da minha alegria e reconhecimento do trabalho da nossa rádio-mãe: a capacidade q        ue tem de provar ao país e ao mundo a riqueza e importância das línguas que muitas vezes ignoramos.

De uma coisa estou certo: a luta contra a covid-19 é das poucas que se deve fazer mais através da comunicação, pois é muita a informação que deve circular, permanentemente, entre as pessoas, na velha lógica da “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

Uma das recomendações que se fazem com insistência, é que se reforce a partilha de informações, experiências e práticas, o que de facto só se pode conseguir com a comunicação, e melhor ainda, usando as línguas que o povo fala. 

O advento da Covid-19 é, na minha opinião, uma das raras oportunidades que a história dá à Rádio Moçambique (RM) para exercitar a sua capacidade de comunicar nas línguas que o país fala, estando eu certo de que todas estas línguas que hoje desfilam na Antena Nacional, geralmente ouvem-se apenas nos limites territoriais das províncias onde são originariamente faladas. Hoje, devido às dinâmicas da sociedade, as pesspas migraram, e com elas as línguas, sendo fundamental ter isso em conta, a bem da eficácia que se pretende desta comunicação.

É provável que muita gente nunca tivesse tido a oportunidade de ouvir algumas das línguas com que hoje se comunica contra a convid-19. E não falo apenas dos adolescentes e jovens, muitos dos quais não conseguem sequer comunicar-se na língua dos seus próprios pais... Falo também de adultos, gente que eventualmente nunca imaginou a profundidade das ligações que há entre as nossas línguas. Ou melhor, gente que não se tinha apercebido do potencial que Moçambioque tem de se comunicar, sem se importar com a origem de cada um dos seus cidadãos.

De facto, mais do que contribuir para a unidade dos moçambicanos, o exercício de comunicar sobre a covid-19 nas várias línguas faz com que a mensagem chegue rapidamente e com potencial de ser assumida por todos.

Por outras palavras, ficam os moçambicanos a ganhar por se poderem conhecer um pouco mais e melhor, e fica a covid-19 a perder por não mais ter a oportunidade de encontrar algum cidadão desprevenido, sem informação básica para se defender.

E estamos agora a falar da covid, mas está claro que podemos manter este ritmo de comunicação para atacar outras doenças e tantos outros problemas que assolam o país.  Para nós, língua não pode, nunca, ser problema.

São muitas as lições que vão ficando da luta contra a covid-19. Uma delas é sobre o investimento que precisa ser feito na comunicação para a educação pública. Está claro que esse é que é o caminho. E vimos como as línguas moçambicanas podem cruzar o espaço e fazer chegar a mensagem onde ela deve ser ouvida. 

Para já, é fundamental que se respeitem escrupulosamente as medidas de prevenção decretadas no âmbito do momento que passamos. Mais do que lavar as mãos com sabão ou usar máscara, é preciso compreender a importância de ser assim, para que possa fazer isso com intenção de ser melhor na forma como se faz à luta.