Director: Lázaro Manhiça

Sigarowane: Foi uma época - Djenguenyenye Ndlovu

UMA cortina cinzenta ao abrir a porta enche-lhe o olhar e uma sensação de bem estar espalha-se por todo o corpo. A alma sorrí.Chove. Aquela chuva que a avó dizia que era própria para se lançar a semente naquelas terras do sequeiro. E continua sendo isso para milhões de vidas, felizmente. Ela cai miudinha e o vai-vem lento do limpa-para-brisa facilita a visibilidade dessa marcha em busca de barrulhos nesses lugares onde os verdadeiros se realizam, barrulhos que afinal ajudam a viver. Ajudam na construção da alegria.

E de repente o carro brecou junto aos restos do que já foram testemunhos de namoros, de encontros de negócios, que já foram sombreiros e guarda-chuvas,referências,mas que os tipos de moto-cerra e bidãozito de combustível deitaram abaixo. Vieram e deitaram abaixo anos de história(com testemunhos impotentes sangrando por dentro) e nem sequer se deram ao trabalho de recolher todo o cortado. Isso alinuma das maisagradáveis esquinasdaquela rua dos Duques.

 Abriu a porta do carro e dirigiu-se ao portão preto que abre em par. Não estava aberto. Sabia do segredo. Meteu a mão e puxou o trinco e empurrou a do lado direito. Galgou as duas escadas atingindo um pequeno corredor ladeado por três mesas para quarto pessoas cada. Percorreu-o até àquela junto ao murro,muitas vezes acossada por vendedores ambulantes de canetas e relógios de marcas contra-feitas. Os vendedores de protectores de celulares e mesmo celulares, tudo de originalidade duvidosa. A banana, a maçã, as atas,uvas trazem-nas as mamãs nas bacias repousadas em cima das cabeças. Aquela mesa, fica com um,dois,três quilos desta e daquela fruta. Depende muito do estado emocional dos habitantes da mesma naquele dia e as mamãs têm o jantarinho garantido para a ninhada que muitas vezes não sabe dizer papá, o caderno para o filho e a capulana para o dia de xitique.

Na mesa,deixou o celular e a carteira(era hábito) e dirigiu-se aos sanitários. Fez as duas escadas e atravessou a área de refrigeração, que fica do lado esquerdo. Alcançou a casa de banho e já correndo o zip, depois de fechar o único botão pensou na canja, essa sopa milagrosa às segundas. O cinto,esse foi o afivelando já a sair ao mesmo tempo com um assobio seguido de um gentil grito,gritozinho: “Miguel”,quando ia a passar pela porta que dava ao bar e deixava ver o tal sentado num banquinho com uma esferográfica e um bloco no qual apontava as encomendas àcozinha e ao bar e pelas quais sabia o que receber de cada mesa, aliás, de cada pessoa. Ao gritozinho simpático, respondeu-lhe um amargo silêncio. A porta estava fechada e era segunda-feira. Continuou e já na área de refrigeração viu as mesas sobrepostas. Umas com as pernas para o ar,as cadeiras sobre elas. Atingiu a mesa junto ao murro na qual deixara o celular e carteira, acabada de comprar por insistência do Henry porque a sua já estava um tanto assim, mas o dinheiro não caía quando lá estivesse. É verdade que já era velhinha. Tinha sido comprada há vinte anos no coração de Lisboa. Bom, a carteira e o celular estavam lá. Pegou-nos e se dirigiu à saída. Antes que a  atingisse recordou-se de uma mensagem que recebera do Fernando uns diazitos atrás. Ele escreveu: “Eu,Salomão, Madoda,Júlio,Isac,Salvador e mais alguns fechamos a mesa. Eram 16.30. Foi uma época”.

É verdade, foi uma época de construção de um discurso que fazia-nos presentes para nos apontarmos os dedos sem maldade, de atirarmos copos terminando em parede por puro gozo, de saudades provocadas por viagens, mas que logo se matavam. Ficou o Isac por organizar outra mesa no lugar de seu conhecimento.

Aquilo não mais voltará a brilhar, nunca mais alise vai rir do humor do Miguel, das birras do Batata, da faladura do Lito ou do Rui dando aulas sobre a culinária, o Henry no seu português dinamarquês ou o Fernando com aquele voz de rádio á madrugada.Enfim…acabou.

Mas é verdade que foi uma época, como o próprio homem, irrepetível.

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