Director: Lázaro Manhiça

NUM VAL’PENA: O mineiro amigo do puto Pascoal! (Leonel Abranches)

Corriam os tenebrosos anos antes da independência. O xibalo e a escravatura marcavam o contexto de um país martirizado. Amigos de longa data entregavam-se às actividades do dia-a-dia e cimentavam os valores da amizade. Os tempos correram e as projecções futuras começaram a separar os velhos amigos. 

Um deles saltou o arame farpado e emigrou para o eldorado nas minas da África do Sul, outros optaram por permanecer na terra amada, onde entenderam que o melhor era mesmo persistir na busca de um Moçambique melhor. Pascoalito rumou para a tuga para estudar medicina e depois para a França. Interrompeu os estudos e filiou-se à causa da libertação do Homem. Continuou a sua actividade política na clandestinidade enquanto estudava, desta vez na França. Os anos passaram, a independência chegou e foi pomposamente festejada. A difícil transição foi uma espécie de teste para os homens e mulheres, bastante jovens, que de repente se viram conduzindo os destinos do país.

Entretanto, o amigo mineiro que nunca mais pusera os pés na terra que o viu nascer, decide retornar. Já não mais aguentava o tormento de não visitar a família e, sobretudo, de sentir os aromas característicos de uma terra que caminhava célere para a conquista de autonomia económica, apesar dos contornos maus da guerra civil que teimava em dilacerar o ventre do país.

A bordo da sua Isuzu KB, com tiras vermelhas e matrícula sul-africana, o mineiro chegou a Maputo em grande estilo. A KB quase adornava, rangia por todos os lados pois estava carregada de tudo quanto entendeu fazer falta em Moçambique, desde sacos de batata e cebola, óleo alimentar, ovos, pão de forma, refrigerantes e cerveja Milk Stout, bolachas, duas bicicletas, bacias, cadeiras e mesas plásticas, de entre outros produtos. Parecia uma autêntica torre de Babel.

Chegou e tratou logo de mandar implantar uma antena no telhado de casa, pois queria mostrar a malta a sua nova TV Tempest colorida. Instalada a antena, a televisão ligada eis que sintoniza o canal da Televisão de Moçambique que entretanto passava o noticiário da noite. O assunto convocava o primeiro-ministro à fala. Atónito, o mineiro olha com atenção à figura do PM. Em silêncio, ajusta a posição no novo sofá da “djon” e fixa com mais atenção à imagem que ia passando. Decide pedir outra opinião e chama à esposa:

“Mariana, olha-lá bem este que está a falar. Não é parecido com Pascoalito, aquele rapaz da esquina?!”. A mulher, com a palma da mão enviesada na testa, como que a proteger-se de um sol imaginário, cerra os olhos e conclui:

“Nada papá! Não tou a ver bem. Mas não sei...”

O mineiro desiste, mas com uma pulguinha ruminando a sua consciência. Dia seguinte decide visitar os velhos amigos e entre gargalhadas e palmadas nas costas próprias de quem não se vê há longos anos, perguntou:

“Por onde anda o Pascoalito?”. O semblante dos amigos mudou e admirados responderam quase em coro:

“Não me digas que não sabes! Pascoalito é grande chefe amigo. É o primeiro-ministro deste país. Mas o gajo não tem essas nhenhensas de chefe grande. Já esteve muitas vezes connosco.”

“Pascoalito?!”- o mineiro estava incrédulo.

“Ya! Pascoalito mesmo. Formou-se e dedicou-se à política. Hoje é primeiro-ministro.”

“Edjó, Pascoalito?!” voltou a questionar, ainda espantado e com os olhos esbugalhados.

“Estamos a dizer que sim pah! Agora é PM aquele ali, gabinete dele fica ali naquele edifício perto da ponteca do ferry boat para Catembe.” Respondeu um deles já impaciente.

Um mês depois o mineiro prepara-se para voltar à África do Sul. Abasteceu a Isuzu KB, já mais leve, e decidiu que passava antes para cumprimentar Pascoalito. Estacionou o carro junto ao edifício e logo a seguir um par de seguranças interpelou-lhe:

“Vim falar com Pascoalito...”

“O senhor não pode estacionar aqui e não temos nenhum Pascoalito aqui...”

“Disseram-me que trabalha aqui e o puto é Primeiro-Ministro...”. Os guardas ficaram com a cara à banda e decidiram encaminhar o mineiro ao gabinete da secretária. Se o tratava por puto Pascoalito devia ter alguma intimidade com o PM e não queriam ser o motivo de zanga do chefe. Enquanto caminhavam pela longa escadaria do edifício, um dos seguranças questionou:

“Mas, chefe, assim mesmo de calções e camisa interior “partes-corno”?!

“Eu vim falar com Pascoalito... sempre conversamos assim, nunca precisei de fato completo ou balalaica para falar com o miúdo...”

No gabinete da secretaria do PM o mineiro continuava a fazer valer a sua intenção de falar com o puto Pascoal. A senhora, zelosa e cumprindo com a regras preliminares para um encontro com o PM, foi mandando preencher um formulário, depois do que o senhor seria chamado para o desejado encontro.

“Máximo uma semana e nós ligamos para si...”

“Mas mamã, eu quero e vou falar com o Pascoalito agora. Não ´tás maver que estou de volta à djone...”

A discussão já tomava outros contornos e a segurança já tinha sido accionada, quando o PM assomou pela porta acompanhando uma ilustre visita.

O mineiro olhou fixamente para ele e gritou:

“Pascoalito, és tu mesmo... caramba Pascoal pah. Estás mais crescido.”

 

Pascoal Mocumbi, tomado pela agradável surpresa, não escondeu a sua emoção e abraçou o mineiro vibrantemente, puxando-o para o gabinete de trabalho, onde conversaram longamente.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Júlio Manjate

Administrator: Rogério Sitoe

Administrator: Cezerilo Matuce

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