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Categoria: Opinião & Análise
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Retalhos e Farrapos: Aumentem o salário dos jornalistas (Concl.) - Hélio Nguane(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

TIRO um cigarro, acendo-o e deixo o fumo lutar com a neve, minha entrevistada chega, pede um cigarro, mete na boca, aproxima-se e os nossos vícios beijam-se. Acesos, soltam dragões para lutar contra a neve.

- Fiz a reserva no restaurante ao lado – disse, num tom de voz suave e educado, sentindo o perfume da minha entrevistada.

- Também fiz uma reserva. Peço que conversemos no restaurante e foi no restaurante Regatul Vinului, fica a duas quadras, podemos ir a pé e no caminho me contextualiza: diz afinal o que querem saber sobre a nossa firma, que tudo faz pelo bem-estar do país.

- Há vozes que dizem o contrário. Existem vários processos contra vocês. Grande parte deles foi arquivada e os queixosos estão a viver em arquipélagos distantes. Por exemplo, o Vladimir postou uma foto ontem nas Ilhas Fijji. Feliz da vida.

- Se a nossa conversa vai se resumir nisso, comentários de fotografias do instagram, prefiro que terminemos por aqui.

- Sem problemas, é complicado fazer entrevistas com temperaturas abaixo de zero e comentando tweets  – disse num tom sarcástico e seco.

Andamos três passos, sem trocarmos uma palavras e ela pisou uma bola de neve e depois disse:

- Porque a reserva está feita, vamos conversar, sem perguntas embaraçosas.

- Não se preocupe, não quero perguntar o número do seu calçado, nem marca do seu perfume e porque não tem um anel no dedo – cuspi num tom morno e dormente.

Sentamos, conversamos como velhos amigos. Ela respondeu a grande parte das perguntas embaraçosas sobre a firma em “off de record”. Espontânea, mostrou que era uma ovelha no meio de lobos. No final da entrevista, disse que a firma iria pagar a conta. Pensei em dizer que pagaria, mas os gastos eram superiores a três salários meus. Ela deu o último gole do vinho que estava no copo e frisou que seria um prazer conversar comigo sobre outros assuntos.

- Calço 40, infelizmente não tenho pés da Cinderela, moro sozinha, estou longe da minha madrasta e irmãs. Na sexta, pode aparecer no meu apartamento e mostro as especificações do meu perfume.

Deixei-lhe dois beijos na bochecha, abri a porta do carro, ela entrou e voltei para casa. Minha namorada disse que estava a caminho e que não havia almoçado; respondi que vou lhe pagar um almoço no restaurante ao lado. Sentei-me, olhei para o computador e comecei a transcrever a entrevista. Estou dividido, sei que a firma é satânica, mas algo diz que é necessário conhecer a marca do perfume da Vasklava, este é o nome da minha entrevistada.