Director: Lázaro Manhiça

Histórias e Reflexões: Quanto custaser fiscal de fauna e flora? (Eliseu Bento)

 

A 31 de Julho o “mundo” parou para deixar passar o Fiscal de Fauna e Flora. Tanto foi assim que a efeméride não passou despercebida em Moçambiqueonde a celebração aconteceu no Parque Nacional daGorongosa, testemunhada pela Ministra da Terra e do Ambiente, Ivete Maibaze.

Tive então o ensejo de fazer parte do grupo de jornalistas presentes no evento,o que me permitiu sentir mais de perto o pulsar da vida deste corajoso e sofrido grupo profissional.

Devo, desde já, deixar aqui escrito: fiquei profundamente aterrorizado com os relatos que ouvi sobre as peripécias pelas quais os nossos fiscais passam para, e passo a citar o fiscal-mor, Carlos Lopes Pereira, “preservar aquilo que em conjunto decidimos guardar para continuar a ter água, ar, chuvas regulares, madeira e, portanto, que haja vida decente na terra”.

E já que estou com a mão na massa, vou deixar o mesmo fiscal-mor relatar alguns dos episódios macabros pelos quais os fiscais passaram em todo o país nos últimos três anos. Antes, porém, Lopes deixa claro que vai falar de uma classe que dá tudo por quase nada:

- Mareau, morto em combate contra furtivos em 2018. Nojope, barbaramente torturado e assassinado este ano. Mupunga, a quem os ilegais deceparam um braço em 2009. Tingolingo, morto por um elefante em 2012. Pita, morto por mordedura de mamba em 2019. Chambuca, atacado por um hipopótamo em 2019. Chipanseque, Maquinasse, Briwacha e Meneses, arrastados pelas águas. Muchanga, ficou com o fémur fragmentado depois de ser colhido por um búfalo. Mavaneco, ferido por um leão. Mzowea, morto por um elefante. Carimo, morto por uma descarga atmosférica em 2019. Macoteco, ficou com o pé rasgado pelos dentes de uma armadilha que os furtivos colocaram.

E não parou por aqui:

- Quatro em cada cinco fiscais já enfrentaram uma situação de ameaça asua vida. Não podemos esquecer que estes homens e mulheres raramente estão com as suas famílias. Talvez, em média, cinco dias por mês. Muitos deles não estão devidamente equipados e protegidos e estão sujeitos a salários baixos e irregulares e, mais grave ainda, não recebem o devido reconhecimento ao protegerem o bem público mais precioso: os nossos recursos naturais.

Vale a pena citar também as palavras de um fiscal vertidas num vídeo passado na ocasião:

- Os furtivos não disparam para nos afugentar, disparam para nos matar.

E quando tudo isso pareceria o suficiente para sensibilizar os presentes, eis que, na sua mensagem, os fiscais queixam-se:

- Acontece por vezes nos casos do crime organizado os autores neutralizados são encaminhados para as autoridades competentes, acompanhados de toda a documentação legal e evidências dos crimes e infracções, mas depois os casos não têm o seguimento adequado e os criminosos acabam por sair impunes. É, pois,com preocupação que constatamos que se continuam a verificar tentativas e actos de retaliação contra fiscais em resultado desta impunidade. Por isso, apelamos ao reforço ainda maior da colaboração entre as diversas entidades envolvidas para um trabalho conjunto com o único e mesmo objectivo de cumprimento rigoroso da Lei, combatendo a impunidade e quebrando as teias que os criminosos se empenham em construir.

Perante todos estes arrepiantes relatos, a questão é mesmo esta:

- Quanto custa ser fiscal de fauna e flora neste país?

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PERCEPÇÕES: Comemorando o fim do estado de emergência (Salomao Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

HOUVE festa de arromba, sexta-feira passada, em casa vizinha. O motivo da festa, segundo vim a saber, era a comemoração do fim do estado de emergência. Durante esta fase festanças do género eram expressamente interditas, em razão da propagação do novo coronavírus.

Vi rapazes e raparigas a consumir diferentes tipos de álcool, enquanto cantavam e dançavam ao som de estranhas e desafinadíssimas músicas, produzidas a partir das suas próprias cordas vocais. A rouquidão das vozes perturbava o repouso dos inquilinos próximos e os tímpanos de qualquer transeunte. Ninguém ousou se aproximar da rapaziada para chamá-la atenção sobre os perigos daquela concentração para a saúde pública. Quem ousasse fazê-lo se arriscava a vexames e ultrajes, com dúzia de acoites à mistura. Mas era necessário travar aquela bandalheira porque, na verdade, aquilo constituía atentado à saúde pública. Às tantas, um “espertalhão” passou pelas imediaçõesvociferando Mahindra! Mahindra!... atitude que serviu para pôr em debandada aquela corja toda. Para trás ficou o silêncio, mas ficou também, uma amálgama de garrafas, de entre plásticas e de vidro, pacotes sabe-se lá de que bebidas e outros tipos de sujidade para uma boa limpeza na manhãdo dia seguinte.

O que percebi naquela juventude é que não percebe nada do cenário que o mundo atravessa, caracterizado pela pandemia de Covid-19, uma doença global, de fácil contaminação e extremamente perigosa. Porém, o que mais preocupou naquela noite não foi tanto a festa ruidosa dos jovens, mas sim o seu total alheamento a este fenómeno atentatório à vida das pessoas. Duvido que qualquer um destes rapazes e raparigas tenha estado, um dia, à frente de um ecrã televisivo ou de tímpano apurado para telever ou ouvir qualquer notícia da actualidade nacional ou internacional, para não falar da leitura de um jornal. Alguém lhes disse que àquela hora terminava o estado de emergência, que eles não sabem e nem imaginam o que é isso, nota suficiente para saírem à rua desordenadamente, apresentando-se como potenciais disseminadores do novo coronavírus.

O que tanto estes quanto outros jovens que eventualmente se tenham comportado de forma errada nos seus bairros, precisam de saber é que o fim do estado de emergência, a 29 de Julho, não significou, de forma alguma, a erradicação da Covid-19. Aliás, esta semana foi decretado um novo estado de emergência para dar suporte legal as medidas de prevenção do novo coronavírus que contemplam a lavagem constante das mãos com água e sabão, o uso da máscara na via pública, a observação do distanciamento social e físico, entre outras. O que os jovens devem saber é que não se devem juntar em promoção de convívios, em grupos numerosos e que a melhor coisa é mesmo ficar em casa.

O novo estado de emergência que vigora partir de amanhãestendendo-se por um período de 30 dias, visa fundamentalmente a salvaguarda do direito à vida das pessoas. Sejamos pois, fiscais uns dos outros no cumprimento das medidas de prevenção da Covid-19 pois, a presente calamidade pública é coisa não só séria, mas muito séria.

Até para semana!

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De vez em quando: Estamos cansados! (Alfredo Macaringue)

 

OS meus amigos do “senta-baixo” continuam a não querer saber nada do confinamento. Não sabem o que é isso de distanciamento social. Mas também como é que vão se distanciar se usam o mesmo copo que nunca é lavado? O cigarro também é partilhado. Passa de boca em boca até ao fim da última beata. Não só, a coisa mais consistente que aprenderam na vida é estarem juntos, cada um libertando o seu “bafo de bode” sem que ninguém se importe com isso. No seio deles nunca alguém adoeceu. Então, para quê o confinamento?

“Nyusi wa lhanya (Nyusi está maluco)! Alguma vez ele ouviu dizer que um de nós está doente? Nós não adoecemos, estamos imunizados pelo aguardente. É assim como eles falam, ignorando completamente o perigo que correm. Claro, não é por maldade que dizem que “Nyusi wa lhanya”. É uma linguagem própria de pessoas que já não têm nada a perder. Perderam tudo, incluindo a dignidade de a sociedade contar com elas. Há casos em que precisam de surripiar pequenas coisas no quintal alheio para custear uma “garrafinha” de aguardente ou uma caneca de “uputsu”. Bebem para disfarçar a situação em que se encontram.

Naquela minha rotina pelo bairro, voltei a passar de um daqueles pontos de concentração dos meus amigos, mas sem a ideia de entrar. Porém, não escapei porque alguns deles reconheceram-me logo e pediram-me para que entrasse. Como sempre, o apelo era para que lhes pagasse “uma”. Paguei. E já sabia que receberia os trocos. Aliás, um deles disse-me logo sem meias medidas: “ você que é jornalista vai dizer ao Nyusi que estamos cansados”. É assim como eles falam, contudo sem qualquer ofensa. Tudo na desportiva. Até porque têm um grande respeito pelo Chefe do Estado, mas bebida é bebida, por vezes a língua escorrega.

São meus amigos de há longa data. Alguns deles estudaram até aos níveis que lhes permitiriam estar mais ou menos na vida. Outros trabalhavam, porém a vida como é surpreendente, acabaram caindo naquela teia, de onde já não conseguem sair. Estão lá e a única coisa que querem é beber. E nem bebem assim tanto porque todo o sangue deles está infectado pelo álcool. Basta uma pinga para começarem a delirar e no dia seguinte já não se lembram do que disseram com uma boca de hálito horrível.

Falo isso dos meus amigos com muita dor, mas é a verdade. E eu me pergunto: se a vida já não tem sentido para eles, como é que vão seguir as recomendações decorrentes do estado de emergência? É por isso que dizem: “estamos cansados “ !

A luta continua!

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RETALHOS&FARRAPOS: A separação da professora Maria Alice (1) (HÉLIO NGUANE)

 

É FACTO, Mário já não é meu esposo. Assinei meu nome trémula e renunciei a felicidade. Não me vejo longe daquele homem, pai do meu filho, progenitor do meu sorriso, vassalo das minhas ilusões e proprietário dos meus planos.

Aceitei segurar o papel, escrevi o meu nome Carla António e pausei. Pois,queria escrever o apelido do meu homem, mas Cossa já não me quer. Vai largar o filho de cinco anos para viver a independência total e completa. Utopia sim. Ele não vai ser feliz, juro que não vai.

Entrego o papel do divórcio e me recuso o papel de vilã de novela mexicana, mas não sei como seguir sem ele. Não se trata de ter independência financeira, trabalho, o salário de professora preenche minhas contas e Júnior terá o dinheiro da pensão. Mas eu não quero aquele dinheiro, quem me dera ser uma das amantes do meu esposo. Para que conste, ele ainda é meu esposo, ainda posso levantar desta cadeira e rasgar o papel. Dizia: queria ser uma das amantes do Mário, ficar de quarto, numa pensão de quinta, transpirar um perfume de terceira qualidade, adormecer na terceira sessão e no meio da noite pedir para que ele mande uma mensagem para a esposa, pois quero me entregar a ele toda a madrugada.

Ele está tão firme, não recua, quer me deixar, mas juro que não vai ser feliz longe de mim. Ainda tenho suas peças de roupa, juro que ainda quero sequestrar as peças intimas e privatizar o que é meu por direito. Gostaria de ver ele com as calças nos calcanhares, a tentar explicar as menininhas que a arma está descarregada, é um simples objecto de adorno, estacionado naquele corpo, com a única função de tirar a urina e satisfazer a mulher que aceitou perante Deus e a lei que rege a República de Moçambique.

O espetáculo acabou, entrei casada e vou sair solteira desta sala. Olho para o meu corpo, ainda é apetecível, Mário anda com problemas de estômago. Meu salto alto está pronto para pisar o concreto, jogo os cabelos indianos e realço o meu decote para chamar atenção ao advogado de Mário. Aposto que quando sairmos da sala ele vai dizer ao meu esposo que erro fatal acaba de cometer.

Estamos na rua, Mário entrou no carro, o advogado dele vem ao meu encontro:

- Boa tarde, senhora Carla. Assinar foi a melhor decisão. Seria doloroso para a senhora e o meu cliente arrastar o processo. E o vosso filho seria o mais lesado.

Olhei para aquele jovem, senti-me jovem, apercebi-me que ainda sou jovem, gostei de ouvir meu nome, há tempos que não era chamada pelo nome, hoje deixei de ser a esposa do Mário, a senhora Cossa para me tornar Carla.

- Leve o meu cartão de visita.

- Não precisa. Não tenciono casar ou entrar em processo litigioso tão já.

Gargalhamos e por educação levei o cartão de visita dele. Li o nome completo e fiquei intricada.

- Cassamo Ali Ali Mohamed Neto, conheço este nome. Não estudou na escola primária Unidade 23 nos anos 1990.

- Sim, fiz o ensino primário lá.

- Fomos colegas.

- Não merecordo. Sou a Mãezinha.

- Eras tão magra.

- Digo o mesmo.

- Daquela escola só me recordo da professora Maria Alice, a separada.

- Nem me fale.

 

Saímos dali a sorrir, entrei no carro, conduzi alegre, por instantes até me esqueci que sou solteira. Entrei na sala de aulas e recordei-me da minha professora. Mas esta é outra história.

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DIALOGANDO: Outra lição de Inhambane (MOUZINHO DE ALBUQUERQUE)

 

NA crónica que escrevemos,neste cantinho,no dia 19 de Agosto de 2019, dissemos que,infelizmente, estava a morrer muita gente nas nossas estradas. Que era uma situação grave,que preocupava a sociedade moçambicana.

Referíamos que tanto já se tinha dito sobre a intensificação das campanhas de sensibilização dos automobilistas para a necessidade destes respeitarem as regras de trânsito no país, mas que mesmo assim, a redução do índice de sinistralidade,que também provoca prejuízos materiais elevados,continuava longe de ser realidade, pois eram incontáveis os acidentes de viação que continuávamos a ter no país.

Destacávamos que entre todos os acidentes de viação que já tinham acontecido, havia um que considerávamos ser “especial” e que merecia que todos reflectíssemos, sério e profundamente sobre ele, na perspectiva de tirarmos lições necessárias para aprender com eleno combate a estes sinistros, tendo em conta as circunstâncias em que o mesmo teria ocorrido. Estávamos a falar do acidente que se tinha registado ainda naquele mês, envolvendo a comitiva do governador da província de Inhambane.

Afirmamos que do que se sabia,em relação a este acidente, era que o mesmo teria provocado a morte de pelo menos cinco pessoas e sete feridos. E sabia-se também que o acidente envolvia uma viatura que teria cortado prioridade a uma outra que fazia a escolta do governador, que se deslocava ao distrito de Massinga.

Todavia, na altura dissemos que era “especial” porque o sinistro envolvia a comitiva do mais alto dirigente de uma província que,tal como outros dirigentes àquele nível e de outros, também são escoltados.

Entretanto, passado quase um ano, de termos escrito a crónica, eis que a província de Inhambane volta a ter um outro acontecimento estranho, relacionado com aexecução de obras de má qualidade de infra-estruturas, que merece que todos reflictamos, sério e profundamente sobre ele, na perspectiva de tirarmos igualmente lições necessárias para aprender com ela no combate aesse tipo de construções no nosso país.

Estamos a falar de uma das raras decisões do Presidente da República, Filipe Nyusi, feitas no mês passado, naquela província, de recusar inaugurar o Instituto Industrial e Comercial Eduardo Mondlane, localizado na cidade de Inhambane, por falta de qualidade. 

É mais uma lição que se pode tirar na perspectiva do que está dito, porque,na realidade, a falta de qualidade das obras de construção de importantes infra-estruturas é um dos grandes problemas que o país tem, e não se sabe sobre onde andam os fiscais das mesmas, aliás, é inegável que sejam eles um dos grandes culpados desta situação prevalecente.

 Os efeitos de má qualidade de obras já se tem desde há bastante tempo no país, e decisões como aquela do PR,em Inhambane,já deveriam ser feitas em muitas delas (obras), que também desencorajariam a corrupção que,igualmente,está na base dessa situação (falta de qualidade dessas obras), pois muitos se aproveitam de negócios do Estado para se enriquecerem.

Para tal, e sem formulação de outros raciocínios, é necessário que os dirigentes,a vários níveis, aproximem sempre e de perto aos problemas relacionados com estas construções se,na realidade,estão interessados em combater este problema que já tem “ barbas brancas”.

Contudo, e porque nunca é tarde demais, esperamos que mais obras sem qualidade, que são tantas no país, possam ser reprovadas tal como aconteceu na província de Inhambane, por parte de quem de direito, dando continuidade do exemplo inequívoco de seriedade e responsabilidade na fiscalização e controlo sem contemplações das construções de escolas, unidades sanitárias, estradas, pontes, casas e outras importantes infra-estruturas em Moçambique.

Porque,compatriotas, com apenas discursos retóricos como estamos habituados, no combate a este mal, nunca será possível identificar,correctamente,as sua reais causas, para se poder actuar com as medidas adequadas para resolver o problema. A segunda lição de Inhambane pode ter consequências positivas, tendo em quem a deu, e isso é que é o mais importante para o país.  

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