ACENTO TÓNICO: Lições do outro lado do mundo (3)   (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

HÁ três princípios interessantes sobre os quais assenta a atitude dos japoneses: i) respeito a si próprio e ao próximo, ii) respeito pelo trabalho e, iii) respeito pelo tempo. Quando o meu amigo Atsushi me disse isto, não imaginei que fosse algo que teria a oportunidade de ir constatando ao longo dos dias que permaneci naquele país.

Sobre o primeiro princípio, Atsushi explicou-me que é por conta dele que as pessoas fazem questão de estar focadas no que de facto é útil para elas, não se metendo literalmente com ninguém.

Sempre me impressionou ver aquele ritual de pessoas a curvar-se umas perante as outras, em gestos de saudação, que chamam à atenção tanto pela sua originalidade como pelo fundo verdadeiro que deixam transparecer respeito entre os intervenientes. 

Ligado a este respeito pelo próximo, fiquei várias vezes imaginando como seriam aprazíveis os nossos bairros, cidades e vilas sem gente a embebedar-se descontroladamente, e a sair à rua aos gritos, dizendo palavrões, completamente indiferente ao mal-estar que isso certamente causa na sociedade. Imagino como seria melhor uma comunidade onde os mais novos respeitam incondicionalmente os mais velhos e estes fazem por merecer; um mundo em que, efectivamente, onde termina a liberdade de um, começa a do outro…

Penso, por exemplo, como seria confortável poder entrar num transporte público e não estar sujeito a escutar conversas destiladas em voz alta por alguns passageiros que, falando descontraidamente sobre os seus problemas ou sobre os seus colegas e vizinhos, não imaginam o desconforto que podem estar a causar a quem, mesmo “enjoado”, não tem outra alternativa que não escutá-los até ao fim da sua viagem.

Sobre o respeito pelo trabalho, dá gosto testemunhar a responsabilidade com que os japoneses encaram as suas obrigações para com o trabalho. Cada um faz o seu, sem qualquer ressentimento, e procura assumi-lo como a melhor ocupação do mundo, como o maior contributo que pode dar ao seu país.

Vendo o orgulho com que aquela malta encara o trabalho, lembrei-me daquele meu vizinho que trabalha para uma empresa privada de segurança mas que, curiosamente, nunca sai de casa para o serviço com a farda vestida. Leva tudo (botas, calças, camisa, casquete, algemas, cassetete e o resto do seu equipamento) na pasta de costas que lhe deve fazer recordar momentos interessantes da sua juventude. Pelos vistos, ele sente-se melhor mantendo sigilo sobre o trabalho que faz. A minha preocupação é saber se, com tanta vergonha (?) do seu trabalho, ele faz o que tem de ser feito e como deve ser feito!  

Sobre o respeito pelo tempo, volto a chamar o Atsushi à conversa. Tínhamos combinado o encontro para às 9 horas da manhã. Quando eram 8.55 horas, o homem ligou a desculpar-se porque chegaria atrasado. Habituado às “frescuras” de nós, moçambicanos, quase não liguei importância a tão nobre gesto.

O ponto é que, entre nós, não cumprir os horários parece coisa cultural. Com a devida vénia ao Jorge Pedro Sousa, marca-se um almoço para o meio-dia e lá pelas 15 horas aparecem os convivas, que acham normal aquilo que para outros povos (neste caso os japoneses) é impensável…

Ou pior ainda: até mesmo numa universidade, marca-se o exame para às 8 horas, e até às 8.30 os estudantes continuam a chegar e a arrastar carteiras para se acomodar na sala, perturbando literalmente o ambiente. Enfim…

Quando vi o homem chegar ao local do encontro, olhei para o meu relógio: 9:03 horas!

- Afinal quando ligaste já não estavas assim tão longe… Julguei que fosses atrasar – disse-lhe, meio inocente. 

- Mas atrasei-me! E peço desculpas por isso. O nosso combinado era 9.00 horas e eu falhei – respondeu com um sorriso.

Definitivamente, ficou clara a diferença sobre o conceito de atrasar… E se calhar seja mesmo por isso que achei tudo aquilo extraordinário. Afinal eu próprio não tinha visto problema algum em que ele se tivesse atrasado… três minutos!

Volto para a semana, pontualmente!

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Limpopo: Se recordar é viver... (1)   (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

HÁmomentos, na vida, em que passamos por enormes dificuldades, valendo a pena lutar por superá-las. Aliás, como bem diz um ditado popular, “o importante, na vida, não é não cair, mas saber levantar-se após a queda”.

Quando estes momentos difíceis cruzam os percursos das pessoas, algumas chegam a pensar que o mundo tenha chegado ao fim e caem em desenganos. Conheço situações de pessoas que se conformaram com o (efémero) momento de dificuldade e desistiram, passando a levar a vida de vagabundo, deambulando pelas cidades sem eira nem beira. Os extremistas, como foi o caso do meu avô, recorrem ao suicídio. A estes considero cobardes e por isso não será com eles que vou perder o meu tempo.

Valentões são os que fazem de dificuldades fonte de inspiração para lutarem pelo futuro melhor e, mesmo sabendo-se que o ideal nunca se atinge, quando dão um determinado salto na vida, também têm tempo e lugar para falarem das suas venturas e desventuras, com todo o orgulho e prazer. Porque a evolução é isto mesmo.

Nos tempos da minha infância, até mesmo nos finais da década de 80, os meus pais reservavam todo o dia para a viagem de Mandlakazi àMaputo, mas com a evolução, que passa pela melhoria das estradas e a cilindrada das viaturas, o mesmo percurso é feito em muito pouco tempo. As distâncias que eram percorridas a pé, hoje em dia são, indiscutivelmente, feitas com recurso a meios de transporte. E quando nos lembramos disso, contando às novas gerações, questiona-se como isso era possível, tal como os meus filhos não entendem como nos acotovelávamos nas sedes dos grupos dinamizadores para vermos televisão, na altura um minúsculo écran preto e branco. Mas conseguíamos ser felizes.

Foi neste rol de pensamentos sobre o passado que minha mãe contou o dilema que viveu no dia do seu casamento. A cerimónia religiosa foi na Missão de S. Benedito, em Mangundze, mas depois teve de percorrer cerca de 10 quilómetros a pé, para Chilumbele! Mas era tudo normal, para aqueles tempos e simplesmente lenda, para as gerações actuais. Os cânticos da ocasião, entoados pelos convidados para a cerimónia eram a fonte de inspiração. Hoje é impensável sair de Chilumbele para Mangundze a pé, percurso que era feito diariamente pelos nossos pais, assim que terminassem a terceira classe elementar, pois as classes seguintes só eram leccionadas na Missão.

Mas há paradoxos curiosos. Hoje, em menos de quatro horas, é possível sair-se de Maputo para Mangundze, num percurso de cerca de 300 quilómetros. Entretanto, para fazer os 10 quilómetros de Mangundze a Chilumbele, no mesmo “chapa”, chega-se a levar as mesmas quatro horas, em satisfação dos diferentes caprichos dos passageiros. Paradoxal! O mesmo sucede no sentido inverso, pois quando se chega ao Zimpeto é preciso pensar noutras penosas três/quatro horas para chegar à Cidade de Maputo, em razão do congestionamento do tráfego.

São dificuldades de hoje e que delas, futuramente, falaremos em forma de nos vangloriar por as ter superado. Afinal, jogando limpo(po), vale a pena transformar dificuldades em desafios.

 

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Sigarowane: Ovos gelados  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

REGULARMENTEtem ovos cozidos que depois metidos em um sistema de frio antes de serem colocados numa bandeja que é colocada por cima de uma mesa que faz de montra do que de bom e de menos bom a casa vende. Fazem, os ovos, companhia a produtos de vinhas portuguesas, de bananas dos solos de Boane, de mafavuka e de outros lugares que com a sua produção alimentam a grande cidade, que já não é de ninguém. É do Mundo. Cestinhos feitos de palha, também por cima da mesa-banca-expositória, contém pão em formato redondo e é de lenha, como sói dizer-se. O pão é coberto por pedaços de guardanapos brancos. As tangerinas, se directamente de Inhambane ou da mamã de bacia na cabeça pelas estradas e pelo sítio, não importa. Estão lá,ainda que ocupando um espaço modesto. Por entre esta mesa e uma outra para a clientela se chega aos lavabos e antes de atingi-los podem se sentir os odores da gordura e a vozeria de gente que cuida da saúde dos que estão sentados á espera do prato servido abundantemente e sempre de lá se voltar, que a cozinha é como da avó. Que em muitas casas já não se alcança. Mas também não faz diferença absolutamente nenhuma porque muitos não a conheceram. A cozinha da avó. E a ela,todos os sabidos de boa comida, acorrem. Acorrem e gulam.

É do lado direito que chegam os odores para quem vai aos lavabos da taberna que acolhe gente de todas as matizes, bem alí num dos bairros de celebração da cidade.

Pois, mas era de ovos que dizia. Naquele dia um único homem estava sentado na mesa traquina. Portanto, único traquineiro que o dia ainda não cresceu. Diante dele, um prato contendo três, mas lá estavam vestígios de que o homem já havia transformados uns tantos em lixo. E estava disposto a continuar com o exercício.

Pôxa pá!

Notavam-se bolhas de água nos ovos, o que indicava que tinham estado a gelar. Os mesmo com os que estavam em exposição. Que mania é essa, lá o taberneiro há-de saber, mas a verdade é que vende, e não vende mal.

O homem coloca os braços por cima do tampo da mesa, num movimento de quem abraça o prato de ovos ao qual tem a cara enfiada. Olha-os com voracidade tamanha e nisto chega um conhecido. A saudação de estilo, de convivas no mesmo espaço já lá vão anos. Repara nos ovos que estão no prato quase que a ser abraçado pelo seu “amigo”e pede para se servir de um. Este recusa-se a deixar que o outro crie uma amolfada á custo do seu suor. Desvaloriza a nega e atira “até porque não gosto de ovos gelados. Só se fossem mornos”. O homem parte mais um ovo.  Descasca-o. Pimentapreta e um pouco de sal pela parte do pião. Leva-o á boca perante o olhar implorador do “amigo”. Depois que a primeira mastigadela se foi goelas abaixo, levantou a cabeça e disse para o outro: “porque é que não vais pedir ovos não gelados ao balcão?”Eele replica dizendo que“mas ele só tem ovos gelados, meu caro”. “Não, diz o outro pondo mais pimento e sal no ovo que já vai a metade, ele tem-nos por debaixo do balcão. Peça que ele tos dá”. E lá foi pedir um ovo dos que estavam debaixo do balcão e o taberneiro, malandrote, cuidou de lhe passar o ovo. Feliz da vida, com ar mais alegre, dirigiu-se á mesa traquina onde o homem engolia o último do último ovo. Sentou-se olhando para este de modo a ficar de cara a cara com o “amigo”. Puxou pelo piris á sua frente e com alguma energia a mais para um ovo, partiu-o e ficou com parte da clara e da gema na camisa e a mão direita toda empapada de ovo. “Pôrra, agora é que me lixaste”,mas o homem já estava na estrada e a gargalhar.

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À LUPA - O plástico está a ganhar batalha: LÁZARO MANHIÇA - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

OS ventos, que se fizeram sentir nos últimos dias, fizeram-me recordar sobre um problema sempre presente, mas que normalmente não temos consciência da sua existência e muito menos da sua gravidade, pois a sociedade parece estar a tomar o assunto com pouca seriedade: refiro-me ao plástico.

No último sábado à tarde, justamente no momento em que os ventos já se faziam sentir com pouca simpatia, pelo menos na província de Maputo, passava eu pela EN4. Pela força deste fenómeno da natureza, vi, de repente, sacos de plásticos que rasgavam os céus, como se de pára-quedas desgovernados se tratassem. Num dos lados da rodovia, no chão, num espaço cheio de capim seco, outros tantos sacos de plástico formavam um manto multicolor. Preto, branco, amarelo, azul e por aí em diante. Eram as cores dominantes.

Cá entre nós não há ainda números oficiais conhecidos, mas estatísticas citadas por organizações ambientalistas indicam que oito toneladas de plástico é o que anualmente o oceano recebe como “doação”. É este plástico que é depois consumido pelos peixes de que os humanos se alimentam, correndo o risco de contrair doenças, como cancros.

Esta realidade chega aos ouvidos do mundo, numa altura em que em todos os quadrantes se multiplicam apelos para cuidados a ter, face aos malefícios deste material para a nossa geração e as vindouras. No país, o Governo decretou regras sobre a gestão, produção, comercialização, importação e uso de saco de plástico, um instrumento que é reforçado pelas acções quase que diárias de organizações ambientalistas nacionais. 

Por conta disso, o saco de plástico tornou-se caro no mercado, mas parece que a medida ainda não está a ser suficiente para desencorajar o seu uso e combate a este material nocivo ao ambiente e à saúde humana.

O plástico continua a proliferar por tudo quanto é canto. Nas imediações dos mercados informais, as valas de drenagem, nas praias e os rios são disso claro exemplo. É nestes locais onde os olhos enchem-se de arrepio ao contemplar o triste cenário.

Os apelos parecem não surtir ainda os efeitos desejados, as fabriquetas de sacos de plástico continuam bem activos. Fala-se de iniciativas privadas ou públicas para a gestão do plástico, mas o que se nota, no terreno, parece que não está a acontecer nada, em termos de acções para melhorar a gestão deste material.

Não podemos inventar a roda porque isso foi feito há muito tempo. Há experiências de sucesso e bastante faladas de gestão do plástico e de outros resíduos até no nosso continente. São os casos do Ruanda e da Namíbia. Por que é que não copiamos estes dois exemplos nesta matéria para evitarmos que o nosso país se torne reino do plástico? 

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Histórias e Reflexões: Chimoio, aos 50 anos - Eliseu Bento

 

A CIDADE de Chimoio completou esta semana 50 anos de existência, ou desde que lhe foi atribuído esse estatuto.

Alguma literatura disponível considera Chimoio a quinta maior urbe do país, depois de Maputo, Beira, Nampula e Quelimane. Sobre isso, confesso que não tenho opinião formada.

Comecei a ouvir falar desse nome por força do Textáfrica de Chimoio, o grande Textáfrica, primeiro campeão nacional de futebol, em que pontificavam figuras como José Luís, Ângelo e outras treinadas pela figura transcendental de Mário Coluna.

Tanto foi assim que, na minha infância, quando comecei a perceber algumas coisas de futebol, me tornei adepto do Grupo Desportivo e Recreativo Textáfrica.

Ainda hoje, alguns dos meus amigos dessa altura, perguntam-me sobre isso e, como jornalista desportivo, de cada vez que vou reportar um jogo do Textáfrica, na brincadeira, querem saber “não vais favorecer a tua equipa?”.

Depois, de facto, fiquei jornalista do “Notícias” e, como ainda não tivéssemos uma representação nesta cidade, fui variadíssimas vezes a Chimoio em serviço de Reportagem, não apenas desportiva, mas de outros assuntos.

Escusado dizer que uma das minhas primeiras curiosidades foi mesmo entrar na Soalpo, entrar na Palhota e ver, de perto, de onde afinal vinha o tal Textáfrica do Chimoio que fez furor no futebol nacional depois da independência.

Nessa altura, Chimoio que conheci era uma cidade pacata que, depois das 21 horas, ficava deserta o que contrariava as manigâncias de um jovem como eu, vindo da cidade da Beira onde já “não se dormia” nessa altura.

Chimoio que conheci já era aquela cidade poeirenta, mesmo assim já famosa pela sua limpeza. Era a cidade da fruta em todas as épocas do ano.

Onde, pela primeira vez ouvi, a máxima de que “a pessoa mais limpa é aquela que não suja, não aquela que limpa”.

Era essa cidade de Chimoio que eu descobria.

Como não deixaria de ser, veio o “boom” e hoje Chimoio que conheço é uma cidade muito mais complexa.

Bem à maneira de todas as cidades moçambicanas, Chimoio também já é uma cidade rural. Onde quase se vende tudo, em qualquer lugar. As construções ordenadas e desordenadas disputam espaços. A população aumentou e parece que aumenta todos os dias com todas as consequências sócio-económicas que isso traz.

E, por falar nisso, Chimoio “não dorme também”.

E tanto “não dorme” que um dos locais mais perigosos que conheço neste país em termos de proliferação de larápios é precisamente naquele mercado municipal junto às paragens de transportes colectivos para os mais diferentes pontos do país.

Falo de um moçambicano que se pode gabar de já ter pisado todas as capitais províncias do país, muitos postos administrativos, localidades e povoados.

Ali, senhoras e senhores, vale tudo. Todo o cuidado ainda é muito pouco, muito pouco mesmo. Num piscar de olhos, podemos ficar sem carteira, sem documentos, sem dinheiro e quaisquer outros pertences.

Aquilo, definitivamente, não é para distraídos.

Até já ouvi dizer que os larápios recorrem a artes mágicas para surripiarem os incautos que se façam ao local.

Mas é claro que isso não retira todos os encantos da agora cinquentenária cidade de Chimoio.

E tanto não retira que decidi não ficar indiferente e deixar aqui a minha singela homenagem pelos seus 50 anos. Que venham outros mais!

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