Director: Lazaro Manhiça

NUM'VAL PENA: Me deixa lá você, não é teu chapa este! (Leonel Abranches)

 

Passavam trinta minutos depois das quinze. A tarde entremeava entre um sol cínico e cadavericamente pálido e umas bátegas de chuva miudinha e irritante. Era uma daquelas tardes frustrantes. Turbas de gente abandonava os seus ministérios e escritórios ziguezagueando dobradas pelo ventre e com as caras escondidas por entre os casacões e capas de chuva. O “chapa” chegou com uma desnecessária demonstração de perícia do “driver”, que chegou chegando. O cobrador, um latagão  barbudo com os olhos vermelhos, assomou pela porta de veículo, anunciou autoritário e a plenos pulmões: “Junta, Brigada, Benficaaaaa, Zona Verdeeee, Ndlavelaaaa, Ndlavelaaaaa. É para sentar três/três aí. Dinheiro trocado na mão. Sem mascra naovalapena. Senhora aí põe mascra.”  Menos de cinco minutos depois o veículo já estava prenhe. Até porque a fila ordeira permitiu que embarcássemos sem o habitual “empurra-empurra”. Bem ao lado de mim sentou-se um jovem, com uma sacola a tira-colo, óculos que lhe emprestavam ares universitários. As calças de ganga, botas Jimmy Dollars e um casaco castanho surrado contrastavam com a cara inocente, ameninada e de perfil académico. O rapaz era um autêntico “mix” de aparências. Tinha literalmente pendurado pelas orelhas um enorme par de auriculares vermelhos berrantes, tão grandes que me fizeram recuar no tempo para me recordar das majestosas colunas de som Tempest trazidas pelos incómodos madjermanes.

O jovem transferiu a sacola das costas para o colo, recostou-se no caquético assento e suspirou ruidosamente. Olhou para mim e cumprimentou com ar desinteressado:

“- Com`é madjeh na boa?”- começou a cair por terra a hipótese de ser estudante universitário. O que raio significava “madjeh”?

“- Tranquilo amigo. E você como está?”- retorqui contrariado. Os meus neurónios começaram a entrar em conflito aberto entre si. O que queria o puto dizer com “madjeh”? olhei-o de soslaio com intenção clara de questionar, mas o rapaz estava já no “modo de voo”. Os gigantes auriculares vermelhos tipo Tempest vomitavam acordes de uma música. O som estava tão alto que se ouvia pelo semicolectivo todo. Fiquei com a nítida impressão que o rapaz ia rasgar os tímpanos, tão audível era a flatulência sonora. Sem que nos apercebêssemos todos repetíamos o coro da música, mesmo sem querer, “até quando vais me temperaréééé...!”

Ainda incomodado com o epíteto de “madjeh”, com gestos bruscos revolvo-me pelo assento para ver se o meu companheiro de viagem baixa o volume do poderoso Tempest vermelho anexado aos ouvidos. Debalde. Para piorar, o rapaz decide fazer-se de vocalista e vai daí que aos berros e com uma voz cavernosa e desafinada ulula estrofes da música. O semicolectivo é subitamente tomado por um inesperado e ridículo concerto a solo. Pelo meio o inevitável coro “até quando vais me temperareeeee...!”. De cada vez que esvaziava o pulmão para dar voz ao coro, parecia que ia entrar em paragem cardíaca.

Atormentado, decidi pôr fim ao concerto macabro do jovem. Até porque os olhares reprovadores dos restantes passageiros encorajaram-me.

Toquei educadamente no ombro do jovem e tentei chama-lo à razão:

“Amigo, acho que o volume está alto demais...”- Não me ligou nenhuma ou nem sequer se apercebeu.

Com um toque mais vigoroso, insisti:

“Sócio, estás com o volume alto, parece que está a incomodar os outros passageiros.” - O homenzinho desta vez acusou o toque e com desagrado reagiu:

“É o qué !?”.

“Definitivamente, este gajo não é nenhum estudante universitário.” - concluí para os meus botões. Fiz um sinal com o dedo indicador nos ouvidos:

“O volume está alto madjeh...”- provoquei.

Indisfarçadamente irritado, tirou as colunas Tempest vermelhas dos ouvidos e aviltou:

“Edjó, não me stressa kota. Me deixa lá você. Não é teu chapa este....”

...e voltou a anexar as colunas Tempest aos ouvidos com o volume a roçar ao escândalo. 

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