Director: Júlio Manjate

Sigarowane: … e chove na Mafalala (Djenguenyenye Ndlovu)

 

ACORDARAM-ME os grilos, sons mudos vindos do telhado, a água no alcatrão a esparanhar-se à passagem de carros e não cantam as galinhas do mato que normalmente o fazem a horas de acordar, e a outras horas quaisquer desde que assim entendam: está a chover em Maputo. E já choveu ontem, e não pouco.

Puxo a cortina e não vejo os homens, não vejo as mulheres no movimento de regresso às casas com o corpo já preparado para enfrentar o dia no escritório ou noutro lugar onde a soma de horas, de dias, resulta em remuneração para o mês aguentar. Arrasca, sim, mas fazer o quê? Aguentar.

Vejo filhos dos homens com capas de chuva por cima da cabeça, com guarda-chuvas, e um pouco inclinados para a frente no caminho da baixa da cidade, de outros lugares onde asseguram a matrícula do filho, o arroz e feijão para a família e de vez em quando uma cerveja na barraca mais próxima de casa por mais distante, o transporte seria um custo adicional, o que não é recomendável na sua realidade.

Vejo jovens estudantes do secundário indo e vindo da escola que me é vizinha. Estão de calças verdes, cor de esperança. E nesta juventude também deposito a minha esperança, como aquele que escolheu a cor, de que estudem não para saírem da escola a reivindicar lugares de PCA’s. Saiam a reivindicar trabalho e deixarem que este os conduza a esses lugares. Estão também de capas de chuva sobre a cabeça, de guarda-chuvas, outros e nem de uma coisa nem de outra alguns. Nuns casos, o guarda-chuvas cobre duas pessoas, mal, mas cobre. E assim vão saltitando no esforço de evitar as possas de água aqui e ali formadas nos disformes passeios que são de todos.

Vejo esses jovens e o meu coração sorri. Está de alguma maneira satisfeito. Deposito neles a esperança de um bom viver, a todos os títulos, dos netos da gente.

E a chuva não pára, e o ulular das árvores, das palmeiras bravas, o bem espassado chilrear de um pássaro desabrigado ou precisado de companhia, são a música que alimenta a minha alma, neste momento e neste lugar. O movimento dos carros também. O som que chega do telhado, recomenda o colchão. Claro que este é um péssimo conselho. Prefiro entrar em oração para os meus iguais de Chamanculo, da Mafalala, de Polana-Caniço e de todos os lugares desprovidos de terra esponjosa, de todos os lugares precisados de barquitos para se movimentar, de todos os lugares onde as pessoas já nem por cima da mesa das refeições conseguem dormir. A água está nas casas, quintais feitos lagoas. O carvão molhado e o açúcar que temperou a água da chuva. O Joãozinho que chora. E mãe com o coração a sangrar. São os desafios de ontem e de hoje. É preciso que morram, para que não continuem a sê-lo amanhã.

Está a chover em Maputo. E há-de chover num outro tempo que vem, como já aconteceu noutros tempos que passaram.

Tal como nos meninos de calças de cor verde, nos sabidos destas coisas de gestão das cidades, deposito a minha esperança: não haverá choros por conta destes eventos da natureza nos tempos que veem porque os sabidos vão resolver isto. As crianças, em eles acontecendo, poderão festejá-los como aconteceu com muitos da minha geração. E não tarda que isso aconteça. Alegria para todos nessa altura que a dor também atinge os que estão na cidade de cimento: têm um namorado/a no Chamanculo, uma tia no Xilephane, um amigo na Mafalala e então também não dormem. Pior: não sabe como levar-lhe ajuda, mas os sabidos vão resolver isso, ainda que tenham de usar o cilindro opressor.

E chove na Mafalala!

Comments

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Bento Baloi

Administrator: Rogério Sitóe

Administrator: Cezerilo Matuce

JORNAL DIGITAL


Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction