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Director: Lazaro Manhiça

MOÇAMBIQUE projecta construir três centros de referência para o tratamento cirúrgico de fístulas obstétricas, na perspectiva de reduzir cada vez mais o número de mulheres que necessitam deste tipo de intervenção para restaurar a sua dignidade.

A informação foi partilhada por Armando Jorge Melo, médico gineco-obstetra e coordenador do Programa Nacional de Fístulas Obstétricas no Ministério da Saúde, falando em entrevista ao “Notícias”, no âmbito das celebrações do Dia Internacional pelo fim das Fistulas Obstétricas, assinalado a 23 de Maio último. Segundo Melo, calcula-se que, anualmente, ocorram no país 2.500 novas fístulas obstétricas e que de 2010 a 2019 foram submetidas a cirurgia de reparação da fístula obstétrica um total de 4892. Referiu que o principal desafio é de se formar mais profissionais de saúde para as cirurgias, por isso, os centros, a ser instalados nas três regiões do país (norte, centro e sul) servirão também como centros de formação para garantir que, no futuro, todos os hospitais do país tenham a capacidade de realizar cirurgias. A ideia é que cada uma destas unidades sanitárias conte, pelo menos com dois profissionais capacitados para as operações de fístulas obstétricas. A fístula obstétrica é uma das complicações do parto que deixa a mulher numa condição de incontinência urinária, o que, na maioria dos casos, expõe-na ao estigma e discriminação social. A maioria delas ocorre em partos complicados e arrastados, por isso Armando Melo convida a mulher a realizar o parto nas instituições de saúde. Apesar desta condição, Melo tranquiliza que a fístula obstétrica não impede que a mulher possa fazer filhos e ter uma vida normal. Acompanhe a entrevista.

NOTÍCIAS (NOT) – Que balanço faz das acções em curso para o combate às fístulas obstétricas no país?

Armando Melo (AM) – O  número de hospitais que têm capacidade cirúrgica para operar fístulas obstétricas tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Alguns hospitais operam em rotina e outros através de campanhas. É nas campanhas em que operamos o maior número de mulheres, cerca de 50, numa semana. Trabalhamos também na componente de prevenção e reintegração social para evitar que surjam novos casos e garantir que após serem operadas, as mulheres sejam aceites nas suas comunidades e famílias.

Taxa de sucesso é de 95 por cento

NOT– O que pode partilhar em termos de resultados destas intervenções?

 AM - Tivemos bons resultados e paulatinamente, estamos a reduzir os casos de fístulas. De 2010-2019 operamos cerca de 4.892 mulheres com um a taxa de sucesso de 95 por cento, isto é, das 100 mulheres submetidas à cirurgia, 95 viram as suas fístulas totalmente fechadas. Anualmente, operamos 650 a 700 mulheres com fístula, cujas idades variam de 14 e 60 anos, mas com maior incidência na faixa etária dos 16 a 24 anos. O tratamento aliado a acções de prevenção ajuda-nos a ter mulheres a fazer o parto com qualidade, feito na unidade sanitária, onde temos pessoas capacitadas para tal.

NOT– As estatísticas mostram que ainda há um número considerado (cerca de um terço) de mulheres que não são abrangidas pelas cirurgias…?

AM- O grande desafio é fazer com que todas as unidades sanitárias com capacidade cirúrgica possam operar as fístulas obstétricas de uma maneira electiva. Isto significa, por um lado, que dentro do programa de cirurgias deste hospital deve-se operar as fístulas. Por outro lado, o desafio é de se criar condições para que os cirurgiões gerais, os ginecologistas, os licenciados em ginecologia e as licenciadas em Saúde Materno e Infantil (SMI) possam operar as fístulas obstétricas. Já estamos a formar há bastante tempo, mas ainda não atingimos as metas, temos até aqui, 29 profissionais capacitados para cirurgias de fístulas obstétricas. Por exemplo, nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Tete, Manica, Sofala, Inhambane temos colegas que operam fístulas nos hospitais rurais e distritais. Temos uma capacidade boa para operar, mas ainda não é suficiente.

Três centros de referência no tratamento de fístulas

NOT- Como pensam em aumentar o número de profissionais para estas operações?

AM– O desafio é instalarmos três centros de tratamento de fístulas obstétricas, sendo um na região norte, concretamente no Hospital Geral de Marere, em Nampula; outro no centro, no Hospital Geral de Quelimane. Na região sul, queremos dar primazia ao Hospital Geral de Mavalane, em Maputo, com um certo suporte no Hospital Central de Maputo. São centros de tratamento cirúrgico de fístulas obstétricas. Em relação ao de Quelimane, as obras estão avançadas e esperamos que dentro em breve estejam concluídas.

NOT– São infra-estruturas de raiz?

AM– Não. Estamos adaptar as unidades sanitárias que já têm algum espaço e condições como a componente de radiologia e o bloco operatório. Assim, as mulheres que forem diagnosticadas fístulas nas unidades sanitárias periféricas serão transferidas para estes centros. Para além disso, os centros servirão de espaço para a formação de novos cirurgiões em matérias de fístulas. Estas duas componentes são importantes para atingirmos o maior número de mulheres e reduzir a prevalência de fístulas obstétricas. Já deveríamos ter o centro de Quelimane pronto, mas devido a conjectura actual (Covid-19), não conseguimos. Contudo esperamos que entre em funcionamento este ano. Nós gostaríamos que todos os hospitais gerais, rurais ou provinciais destas três regiões, tivessem pelo menos dois indivíduos formados e com capacidade de operar fístulas obstétricas.

Parto na maternidade reduz risco de fístulas

NOT- Qual é o vosso principal foco na prevenção?

AM - O grande foco é trabalhar com as comunidades, sensibilizando-as para que todas as mulheres grávidas possam fazer o parto nas maternidades. O objectivo é de que haja a abolição completa dos casamentos prematuros porque estudos preliminares feitos revelam que o maior número de mulheres que têm fístula obstétrica varia de 14 e 24 anos. Estamos a trabalhar com os Ministérios do Género, Criança e Acção Social, do Interior e da Educação e Desenvolvimento Humano para que haja essa sensibilização em massa a fim de acabarmos com os casamentos prematuros e as gravidezes precoces na sociedade. O mesmo acontece na reintegração social, na qual trabalhamos também com associações comunitárias. 

NOT – Há algum perigo as mulheres com fístula engravidarem? Tivemos o conhecimento de uma que fez dois filhos nesta condição. Que orientação pode dar?

AM - Quando se fecha a fístula, dá-se uma medida de contenção para que durante algum tempo essa mulher não possa engravidar. Depois disso, ela pode fazer quantos filhos quiser. É natural que o primeiro parto feito após a cirurgia seja uma cesariana. Mas depois pode ter partos normais, se as condições assim o permitirem. Temos também casos de mulheres que engravidam, muitas delas, com fístula pequena. Para estas, aconselha-se, muitas vezes, uma cesariana, mas isso não impede que ela possa fazer o parto normal. Recomenda-se a cesariana para não complicar ainda mais fístula. A fístula não impede que a mulher engravide e tenha uma vida normal. O problema é o estigma e discriminação que muitas sofrem. Mas a fístula é prevenível e curável, dentro de determinados parâmetros. Nem todas as fístulas são curáveis e para aliviar faz-se determinado desvio para que a urina não saia do canal vaginal. 

(Evelina Muchanga)

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