Director: Lázaro Manhiça

A PESQUISADORA Liazzat Bonate afirma que deve haver “um estudo profundo” para perceber as origens dos grupos armados que já fizeram pelo menos mil mortos no norte do país.

“Já há três anos que temos teorias abstractas, mas o que precisamos é de uma descrição espessa da situação, muito pormenorizada e detalhada do contexto de cada um dos indivíduos envolvidos”, disse a investigadora moçambicana da Universidade das Índias Ocidentais de Trinidad e Tobago.

Liazzat Bonate é professora de História de África, doutorada pela Universidade da Cidade do Cabo e autora de várias publicações sobre o islamismo em Moçambique. A investigadora falava semana passada numa conferência na Internet (webinar) sobre o contexto histórico que visa explicar a violência armada em Cabo Delgado.

“Não queremos somente os nomes deles, queremos saber o que fizeram, onde estudaram, com quem e por onde viajaram, como foi o percurso de vida deles”, acrescentou.

A pesquisadora diz que há jovens que ao fim do sétimo ano de escolaridade ganham bolsas para o ensino secundário e médio em países árabes. A partir desse ponto, os jovens podem ou não se radicalizar, uma vez que ficam expostos a dezenas de outros colegas de diferentes países e realidades.

Mas esse não é o único ponto que explica o extremismo e uso da violência: há também questões locais responsáveis pelo conflito, por parte de grupos “magoados e injustiçados” na sua própria terra.

Maria Paula Menezes, investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que participou no mesmo “webinar”, diz que há que perceber os apoios a partir da localidade onde vivem e esquecer que os moçambicanos são camponeses, empobrecidos, sem capacidade intelectual para perceber outros mundos. “Se nós virmos Moçambique a partir do Norte, as ligações são à Tanzania, Zanzibar”, entre outros,“e quando fizemos trabalhos sobre resolução de conflitos na região soubemos que quem arbitra é um líder nas Comores”, disse.

Há outras dimensões de outras pertenças e que fazem sentido e há que pensar “fora de Maputo” quando se quer resolver o problema de Cabo Delgado.

Cabo Delgado é,desde Outubro de 2017,palco de acções de grupos armados que, de acordo com as Nações Unidas, forçaram a fuga de 250 mil pessoas de distritos afectados pela violência, mais a norte da província.

O conflito armado naquela província já matou pelo menos mil pessoas e algumas das acções dos grupos armados têm sido reivindicadas pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico (EI).

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