Director: Júlio Manjate

SEMPRE foi apanágio deste jornal procurar reportar quase tudo o que ocorre na sociedade sobre diversos domínios da vida quotidiana dos cidadãos. Comprometidos com os factos, inovando e informando sempre, os jornalistas deste matutino observam, interpretam e descrevem o que vêem e ouvem todos os dias, procurando alertar e prevenir determinadas situações indesejáveis.

Como qualquer jornal, chamamos atenção sobre o que anda mal para que as entidades ou pessoas indicadas possam corrigir determinadas situações e prestaremmelhor serviço aos cidadãos, mas também não fechamos os olhos para o que está bem ou, se preferirmos, que começa a melhorar.

Vem este introito a propósito da quadra festiva,que, tirando um e outro episódio de violência física e acidentes de viação que pintaram de negro os últimos dias do mês de Dezembro de 2019, pode-se considerar de ordeira e pacífica, a medir pelos relatos que nos chegam de todos os pontos do país.

Queremos destacar aqui neste espaço a actuação da Polícia da República de Moçambique (PRM),que desde a festa do Dia da Família até à transição do ano 2019 para 2020, a nosso ver, foi positiva e merece todo o nosso apoio e elogio.

Alguém dirá que a corporação não precisa de tais elogios porque esteve apenas a cumprir o seu dever. Sim, concordamos com isso!

Mas quando estávamos habituados a lidar com uma Polícia que nas festas esfregava as mãos para amealhar alguns cobres dos cidadãos a troco de quê não sabemos, sobretudo dos imigrantes, é precisodestacar o comportamento a que assistimos desta vez.

É que ouvimos o comandante-geral da PRM, Bernardino Rafael, a anunciar a suspensão de férias e folgas a todos os agentes e aconselhou-os a actuaremde modo a auxiliar os cidadãos, orientando-os sobre o seu comportamento na euforia das festas,sem alterar a ordem pública.

Disse também para mandar parar os automobilistas quando o objectivo for de dar informações sobre as condições da via e/ou de qualquer situação na estrada, assim como para alertar sobre o perigo de uma condução sob efeito de álcool ou comfadiga, menos para importuná-los.

Falou até da criação de centros de internamento para os bêbados que se fazem ao volante até recobrarem a lucidez ou, querendo continuar com a viagem, solicitar outra pessoa habilitada e que não tenha ingerido bebidas alcoólicas para fazê-lo por eles.

Notámosassimgrande presença policial nas ruas e locais estratégicos em grupos de dois ou três agentes que, sem interpelar ninguém, persuadindoseja quem fosseque tivesseintenções de criar desordem e prestaram auxílio a quem necessitasse.

Vimos também os “Mahindras” recentemente atribuídos à corporação posicionados emlocais bem identificados e outras viaturas de assalto que, de vez em quando, davam um giro pelos bairros sem incomodar ninguém, o que serviu para afugentar todos aqueles que têm nas veias o ADN de provocar mal aos outros.

Aplaudimosesta nova postura da corporação e queremos que seja assim todo o ano, a ver se, ao longo do tempo, sejapossível limpar aquela imagem que os moçambicanos têm de polícias que estão só para criar dificuldades ao cidadão.

Involuntariamente, ouvi um agente policial a perguntar a um outro, julgo ser seu superior, se depois deste período festivo em que garantiram a tranquilidade,seriam retomadas as folgas. Não ouvi a resposta, mas calculo que tenha dito que sim,porque é de regra, desde que isso não prejudique a manutenção da ordem.

Mas, como sói dizer-se,“não há bela sem senão” ou, querendo, “no melhor pano cai a nódoa”. Com efeito, ouvimos, logo no segundo dia do ano, que foi neutralizado um agente que liderava uma quadrilha de larápios no Niassa e recuperada na sua posse uma arma de fogo.

Destaque-seneste caso o imediato posicionamento da corporação,que tratou de prender, responsabilizar criminal e disciplinarmente o agente que, à partida, será expurgado da corporação. Acrescentamos que é preciso averiguar, vasculhando bem na sua residência se não terá outra arma escondida.

Se por causa da presença policial ou não, o comportamento dos cidadãos foi também, a todos os títulos, louvável, o que leva a crer que acataram os conselhos do comandante-geral paraconter os ânimos e respeitar o período de dez minutos antes e depois da transição para o uso do fogo-de-artifício, para além dos cuidados no seu manuseamento.

Como resultado, poucos casos de ferimentos por agressões físicas e de queimaduras com objectos pirotécnicos deram entrada nos hospitais, o que deixou os profissionais de saúde com espaço para atender a casos de doenças naturais e não de brincadeiras de mau gosto.

A exemplo disso, em conversa com uma pessoa conhecida, disse que passou a transição do ano no Hospital Central de Maputo na companhia de um familiar que se sentiu mal momentos antes da meia-noite.

Disse que esteve lá até cerca das 3 horas da madrugada do dia 1 de Janeiro, mas não assistiu a habitual avalanche de feridos com garrafas de cerveja e outros objectos contundentes ou queimaduras a dar entrada no Banco de Socorros.

Anotou que até o corpo médico abandonou os gabinetes de atendimento para o pátio, de onde assistiu ao fogo-de-artifício,porque, de facto, não havia doentes para atender, mostrando que, realmente, esta foi uma das transições mais tranquilas que tivemos.

Este comportamento dos cidadãos mostra alguma tomada de consciência sobre a possibilidade de fazer festa sem, necessariamente, queimar pneus nas ruas, partir garrafas ou atirar pedras contra tudo e todos só para mostrar que estão satisfeitos.

Fazemos votos para que todos os dias sejam de festa, ordem, tranquilidade e todos os anos se “rendam” sem empurrões,e aconselhamos o ano 2020, que decorridos os seus 365 dias, venha ceder o lugar a 2021 na mesma tranquilidade que recebeu de2019.

Isaías Muthimba

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NO dia 22 de Dezembro de 2016, Achille Mbembe, historiador, pensador pós-colonial e cientista político camaronês, publicou, no sítio da Internetdo “Mail & Guardian”, da África do Sul, um artigo intitulado “The age of humanism is ending” (“A era do humanismo está a terminar”), no qual traça um quadro fatalista em relação ao rumo do século XXI, caso fiquemos de braços cruzados.

O intelectual entende que os problemas de exclusão social, que foi uma das lutas do século passado, não se vão resolver;pelo contrário, vão agravar-se.

Na sua visão, a política está a ser tomada pelo capitalismo. O capital é lucro. Lucros são números. Números são estatísticas. Enquanto o humanismo são as nuances, as variáveis, que não têm lugar nessa lógica quantitativa.

Nesse posicionamento, Achille Mbembe vai em contra-mão dos progressistas. É disso elucidativo que ainda nos cheguem relatos que dão conta de que nos hospitais ainda se paga um dinheiro extra aos agentes para atendimentorápido. Dói saber que até quem fez, depois de anos e anos na carteira, o juramento de Hipócrates, tenha um desprezo pela vida, pela dor e se aproveitedo desespero alheio para satisfazer o seu bolso. O argumento dos salários baixos não pode estar acima de uma vida sequer. Aliás, se fosse por aí, ao menos, avaliariam a condição financeira do doente.

Não é falso que essas pessoas sejam pobres. Sãopobresde valores, aliás eles nem sabem o que é isso. Insultam o sujeito racional, iluminista. É, realmente, gente pobre que tem a ilusão de que não há meios a medir para alimentar a sua ganância, que não se importa de negociar, desde a cama clínica, uma pessoa na agonia entre a vida e a morte, o cuidado do corpo para vender às funerárias após a morte. É gente porca e indigente.

Para onde vai a compaixão? Há virtudes cuja falêncianão podemospermitirporque nos aproximam, não apagam os nossos sentimentos, não individualizam. Há uma música que diz “Ninguém caminha só, nem mesmo Deus - até porque é dependente da fé, tão frágil”. E a lógica Ubuntu -“eu sou porque és” -, ferozmente defendida por Desmond Tutu e Nelson Mandela, ignora-se!

Cada tempo com os seus vícios. Marx entendia que, no seu, a guerra era de classes. Achille Mbembe, no referido artigo, prevê que os do século XXI, nesta fase inicial, serão os conflitos sociais na forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais. Nesse percurso, semeia-se a divisão, minimiza-se o outro. Aliás, reduz-se o outro a nada, até porque o problema pode ser justamente esse:olhar para o próximo como outro, o que elimina a semelhança que nos une, o humanismo.

O doloroso é vermo-nos obrigados a pensar que não responderemos ao pedido do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, de fazer deste mundo melhor o que a sua geração tinha falhado (é o pedido eterno).

O optimismo tem sérias dificuldades de concordar com as crónicas apocalípticas. Mas as circunstâncias são pouco animadoras e muito se parecem com as descrições bíblicas. Concorda com Achille Mbembe?

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PACIÊNCIA é, talvez, uma das maiores virtudes do Homem.Nas fábulas, é uma das características comuns dos sábios. Mas também não é para abusar, como muitas vezes acontece nos serviços públicos. Às vezes, fica-se com a impressão de que é um teste feito propositadamente. Até porque, não raras vezes, vimos quem deveria atender a preparar saladas de alface, a jogar Solitário ou a trocar impressões nas redes sociais da Internet. Enquanto isso, a gente que aguente, semsequerassentos para a malta. Santa paciência! E no que diz respeito à paciência, as mulheres é que melhor dominam a matéria, oxalá tenham que baste para explicar aos servidores públicos que já não está dar.

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