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Categoria: Conversas ao sábado
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“Pelo sotaque, percebo que és chingondo”, diz um, num determinado espaço. “Logo, nota-se que és viente”, ouve-se, noutro espaço.

Estas formas de identificação são a “outrificação”. O distanciamento baseado em razões geográficas, étnicas e outras que apenas nos separam.

Embora, conforme a história mostra, a humanidade sempre sofreu deste flagelo, desta incapacidade de reconhecer o diferente como complementar da existência de cada individualidade, há excepções que poderiam servir de modelo. Eduardo Mondlane, 50 anos depois da sua morte, é um deles.

O princípio da Unidade Nacional, de que é arquitecto, pode ser a esteira na qual nos sentamos para conversar as nossas diferenças – o que permitirá nos conhecermos – e celebrar o que nos torna iguais, o que nos torna mais próximos. Para nos recordar que, antes de mais, somos pessoas, e somos moçambicanos.

A olhar o mundo com a visão eduardomondliana, percebemos que não se pode marginalizar esses separatismos. O genocídio de Ruanda e a intolerância de alguns grupos étnicos quenianos são provas inequívocas de que a discórdia não produz ganhos para os que estão em oposição.

O sentido de celebrar o ano Eduardo Mondlane encontra-se na apropriação do seu legado para nos tornarmos pessoas melhores. E para continuar, todos os dias, um país que aceita e orgulha-se da sua diversidade.

Libertarmo-nos dessas algemas étnicas e geográficas é condição sine qua non para nos tornarmos Homens livres e abertos a novos horizontes e paisagens que só pertencem a um lugar que não o do nosso domínio. Se bem que uma proposta de visão diferente sobre o nosso lugar é também possível a partir do olhar de fora.

O arquiteto da Unidade Nacional deve ser encarado despido de cores partidárias, para o encararmos como um património nacional pelo contributo que deu a dado momento determinante da nossa história enquanto nação.

Não se está aqui a defender que se trata de um indivíduo perfeito, até porque tal é uma miragem. Estamos é a defender que pelo seu percurso, podemos nos inspirar a grandes vitórias. Vindo do interior de Moçambique, através da inteligência e entrega chegou ao topo da carreira, nos Estados Unidos, tido na época (e continua) como um dos mais racistas do mundo.

Ter abandonado uma situação de privilégio, com indicadores de ascensão para vir entregar a sua vida por uma maioria é de uma heroicidade a ser exaltada. A sua consciência de que, conforme Óscar Monteiro, “devemos beber das nossas tradições”, pode ser uma das provas da necessidade de nos conhecermos melhor, enquanto moçambicanos.

Um mundo bonito, repleto de beleza – não nos referimos apenas as flores, ao mar e aos pássaros – pode se abrir quando descobrirmos que as fronteiras são apenas marcos e não o fim em si. E que a geografia não pode nos separar.