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Categoria: Conversas ao sábado
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NO dia 22 de Dezembro de 2016, Achille Mbembe, historiador, pensador pós-colonial e cientista político camaronês, publicou, no sítio da Internetdo “Mail & Guardian”, da África do Sul, um artigo intitulado “The age of humanism is ending” (“A era do humanismo está a terminar”), no qual traça um quadro fatalista em relação ao rumo do século XXI, caso fiquemos de braços cruzados.

O intelectual entende que os problemas de exclusão social, que foi uma das lutas do século passado, não se vão resolver;pelo contrário, vão agravar-se.

Na sua visão, a política está a ser tomada pelo capitalismo. O capital é lucro. Lucros são números. Números são estatísticas. Enquanto o humanismo são as nuances, as variáveis, que não têm lugar nessa lógica quantitativa.

Nesse posicionamento, Achille Mbembe vai em contra-mão dos progressistas. É disso elucidativo que ainda nos cheguem relatos que dão conta de que nos hospitais ainda se paga um dinheiro extra aos agentes para atendimentorápido. Dói saber que até quem fez, depois de anos e anos na carteira, o juramento de Hipócrates, tenha um desprezo pela vida, pela dor e se aproveitedo desespero alheio para satisfazer o seu bolso. O argumento dos salários baixos não pode estar acima de uma vida sequer. Aliás, se fosse por aí, ao menos, avaliariam a condição financeira do doente.

Não é falso que essas pessoas sejam pobres. Sãopobresde valores, aliás eles nem sabem o que é isso. Insultam o sujeito racional, iluminista. É, realmente, gente pobre que tem a ilusão de que não há meios a medir para alimentar a sua ganância, que não se importa de negociar, desde a cama clínica, uma pessoa na agonia entre a vida e a morte, o cuidado do corpo para vender às funerárias após a morte. É gente porca e indigente.

Para onde vai a compaixão? Há virtudes cuja falêncianão podemospermitirporque nos aproximam, não apagam os nossos sentimentos, não individualizam. Há uma música que diz “Ninguém caminha só, nem mesmo Deus - até porque é dependente da fé, tão frágil”. E a lógica Ubuntu -“eu sou porque és” -, ferozmente defendida por Desmond Tutu e Nelson Mandela, ignora-se!

Cada tempo com os seus vícios. Marx entendia que, no seu, a guerra era de classes. Achille Mbembe, no referido artigo, prevê que os do século XXI, nesta fase inicial, serão os conflitos sociais na forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais. Nesse percurso, semeia-se a divisão, minimiza-se o outro. Aliás, reduz-se o outro a nada, até porque o problema pode ser justamente esse:olhar para o próximo como outro, o que elimina a semelhança que nos une, o humanismo.

O doloroso é vermo-nos obrigados a pensar que não responderemos ao pedido do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, de fazer deste mundo melhor o que a sua geração tinha falhado (é o pedido eterno).

O optimismo tem sérias dificuldades de concordar com as crónicas apocalípticas. Mas as circunstâncias são pouco animadoras e muito se parecem com as descrições bíblicas. Concorda com Achille Mbembe?