Director: Júlio Manjate

A elevada taxa de analfabetismo em Moçambique é um dos factores que propicia a desinformação e as “fake news”(notícias notícias), considerou ontem Ernesto Nhanale, director executivo do Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA).

O analfabetismo atinge quase metade dos 28 milhões de habitantes e esse é um dos factores que contribui para o que Nhanale classificou como “uma sociedade mais emocionada” do que ligada a questões racionais.

O director do MISA aproveitou a ocasião para lembrar que, antes de existir a Internet, já circulavam “fake news” e, no caso de Moçambique, como no de outros países, há questões de base por resolver.

Ernesto Nhanale referiu-se a um “autoritarismo institucional” que dificulta circuitos de informação, mas também a “um problema de formação, ao nível da escola”, numa alusão à formação de base e baixo nível de responsabilização quando algo corre mal.

O analfabetismo predomina e mesmo entre quem domina o português ou outras línguas há dificuldades ao nível da literacia digital.

Estes são aspectos para os quais são dirigidas as actividades do MISA-Moçambique, apontou Nhanale, realçando que a organização mantém um calendário que prevê debates sobre o problema da desinformação, ainda antes do final do ano.

A conferência Combate às “Fake News” - Uma Questão Democrática, é promovida pela Lusa, em parceria com o semanário Savana, que celebra 25 anos, e a Universidade Politécnica.

O evento sucede a outro sobre o mesmo tema, promovido pela Lusa, em Fevereiro, em Lisboa.

Fraca compreensão das línguas maternas pode dar origem a desinformação

A fraca compreensão das línguas maternas moçambicanas ou a má tradução para essas línguas podem dar a origem à desinformação, alertou ontem António Ndapassoa, director do departamento de Línguas da Rádio Moçambique.

“Podem ocorrer ‘fake news' nas publicações em línguas moçambicanas”, referiu durante a conferência sobre o tema, promovida ontem pela Lusa em Maputo e intitulada "Combate às ‘Fake News' - Uma Questão Democrática".

Moçambique tem uma população de 28 milhões de habitantes, estima-se que 39% seja analfabeta e a larga maioria – cerca de 90% - tem uma língua moçambicana, como língua materna, em vez da língua oficial, o português, o que obriga a reflectir sobre o efeito que esta diversidade pode ter no surgimento de desinformação.

O debate sobre o tema é recente e a própria denominação equivalente a ‘fake news' varia de língua para língua, entre expressões com uma ou quatro palavras.

"A Rádio Moçambique tem noticiários diários em 19 línguas com informação, maioritariamente, traduzida do português", referiu Ndapassoa, que é também docente na Universidade Politécnica.

Na televisão, há também "jornais locais em emissão nacional diária", em que "a notícia é quase sempre escrita em português e depois traduzida", afirmou.

Nas redes sociais, "há uso das línguas maternas em interacções informais e notícias, que são veiculadas, de forma irregular, quase sempre traduzidas do português", acrescentou.

Neste sentido, "precisão e rigor" são necessário ao lidar com as línguas locais de cada região nos órgãos de comunicação social, realçou.

Por outro lado, principalmente, nas zonas rurais, há informação propagada "sem recurso aos media, mas que cumpre o roteiro das ‘fake news'”, acrescentou, apontando, como exemplo, o mito do ‘chupa-sangue' – relatos de pessoas, que utilizam instrumentos especiais, para roubar o sangue a outras.

Nalguns pontos, este conto recorrente já tem motivado confrontos da população, que acredita neles, com equipas de médicos ou de pesquisas agrícolas, e que utilizam equipamentos desconhecidos para a maioria dos residentes e que motivam boatos.

Em Outubro de 2017, a polícia moçambicana deteve 20 pessoas na província da Zambézia, suspeitas de vandalismo, motivado por relatos da presença de supostos "chupa-sangue" na região.

Na altura, duas pessoas morreram durante os tumultos e vários estabelecimentos foram destruídos.

 

A conferência “Combate às 'Fake News' - Uma Questão Democrática” é promovida pela Lusa em parceria com o semanário Savana, que celebra 25 anos, e a Universidade Politécnica.

Universidades devem incluir combate à desinformação nos currículos

As universidades moçambicanas devem incluir nos seus programas de ensino formas de combate às ‘fake news’, visando formar jornalistas capazes de detectar notícias falsas, disseram ontem em Maputo docentes universitários nacionais citados pela Lusa.

A abordagem da problemática das ‘fake news’ (desinformação) nas universidades "requer uma reforma curricular", defendeu Celestino Joanguete, docente na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), falando na conferência "Combate às ‘fake news’: uma questão democrática".

Os cursos de jornalismo devem munir os futuros profissionais de capacidades e ferramentas, que possibilitem a detecção de notícias falsas.

Eliseu Bento, docente na Universidade Pedagógica de Maputo, também advogou a incorporação do tema das ‘fake news’ nos cursos de comunicação social, assinalando que os estudantes actuais estão mais interessados em operar com os media digitais, que são o maior palco de informação falsa.

"É um fenómeno, que se tem de ensinar a combater", tendo em conta que os estudantes actuais querem entrar para um "jornalismo mais rápido, que são os meios digitais" e "lêem pouco", destacou Eliseu Bento.

Por seu turno, António Ndapassoa, docente na universidade A Politécnica, também advogou a necessidade de as instituições de ensino superior reagirem à intensificação de notícias falsas.

"É uma realidade com uma configuração nova, há que haver um ajuste nos planos curriculares", para responder às ‘fake news’, disse.

No caso moçambicano, prosseguiu, deve ter-se em conta que 40% da população é analfabeta e cerca de 70% não tem acesso aos media tradicionais.

Leis contra desinformação não devem pôr em causa liberdades

As leis contra as 'fake news' devem respeitar as liberdades de expressão e de imprensa e não devem servir de instrumentos dos poderes públicos contra as liberdades fundamentais, defenderam ontem jornalistas em Maputo, citados pela Lusa.

A preocupação das sociedades democráticas em relação ao efeito de normas contra desinformação "é uma questão legítima", defendeu o presidente do Conselho Superior de Comunicação Social de Moçambique (CSCS), Tomás Vieira Mário, falando, ontem, na conferência "Combate às 'fake news': uma questão democrática", organizada, ontem, em Maputo, pela agência Lusa.

Para Tomás Vieira Mário, a regulação dos meios de comunicação digitais tornou-se premente, tendo em conta a incidência de conteúdos falsos veiculados naquelas plataformas, mas essa intervenção legal deve evitar o cerceamento da liberdade de expressão e de imprensa.

"Mesmos nos grandes motores de busca já há medidas contra o 'hate speech' [discurso de ódio], mas há resistência contra esse tipo de iniciativas, devido ao risco de aproveitamento" para a limitação de liberdades, frisou o presidente do CSCS.

Por seu turno, a directora de informação da Lusa, Luísa Meireles, assinalou que vários países europeus já avançaram com iniciativas legislativas, para conter a proliferação de notícias falsas, mas essa intervenção tem gerado polémica pelo potencial de limitação de direitos fundamentais.

Francisco Carmona, editor-executivo do semanário Savana, alertou para o risco de aproveitamento da luta contra as 'fake news' para a introdução de restrições às liberdades de imprensa e de expressão.

"Até que ponto a aprovação de legislação para a regulação das redes sociais não será aproveitada a favor da censura?", questionou Carmona, alertando para o perigo de legislação contra notícias falsas.

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