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Quinta-feira, 6 - Outubro, 2022

Belas memórias: Uma vida dedicada aos outros

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ANABELA MASSINGUE – anmassingue@gmail.com

FORMADO em enfermagem, nos primeiros anos da independência nacional, João, nome fictício que pretendo usar para tratar um decano da enfermagem, já estava aposentado, após dedicar grande parte da sua vida em prol dos outros, trabalhando pelo país fora, sempre em zonas recônditas, trilhando o Moçambique real.

Não foi enfermeiro de lidar com facilidades. Palmilhou Moçambique de lés-a-lés durante a sua carreira sempre marcada por desafios, pois quis o destino que fosse afecto sempre em zonas onde não havia médico, tendo se visto obrigado a desempenhar esse papel. É que nesses lugares não havia quem tivesse qualificações acima das que ele reunia. Sendo assim, não restava mais nada que ser um enfermeiro “faz tudo”, tal como aconteceu com muitos profissionais do seu tempo.

Esteve, por esta via, em zonas sem maternidades e muito menos parteiras mas que era preciso fazer partos, pois sempre nasciam novos seres humanos. Quando não houvesse matronas por perto ou em casos de partos complicados, lá entrava em cena, puxando pelos conhecimentos básicos sobre o parto, adquiridos ao longo da sua formação e o que a experiência profissional o reservara em ocasiões anteriores.

Assim foi a sua vida profissional até cortar a meta por direito e partir para a reserva, como dizia um colega meu, que nega conjugar o verbo “reformar”.

A família do enfermeiro teve que se sujeitar a sucessivas mudanças de um lugar para o outro, onde este era sempre chamado a emprestar o seu saber, na luta pela vida do outrem. A dado momento, teve a iniciativa de fixar a família em Maputo e reservar o roteiro pelo país, somente para ele.

Depois de tudo resolveu juntar-se aos seus para viver momentos que a profissão, muitas vezes não permitiu. Mas foi nesse momento que a doença lhe bateu a porta e já era a sua vez de procurar ajuda em mãos alheias, pois ele próprio não tinha como se cuidar.

Mas o primeiro problema tinha a ver com o diagnóstico acertado da doença que o apoquentava. Buscou, em várias ocasiões e hospitais, descobrir a causa da sua doença mas revelou-se difícil. Limitava-se a tratar apenas os sintomas até que o problema se agravou.

Já numa fase em que pouco havia por fazer, veio o diagnóstico certo mas em momento errado, pois já era demasiado tarde. Sujeitou-se a internamento e numa dessas vezes, forçado a alta hospitalar, para ficar em casa junto dos seus até que o dia da partida para junto do pai celestial chegasse.

A família o rodeava sempre em visitas e nada mais podia fazer senão contemplar a partida lenta do homem da cura e, quando muito, buscar memórias sobre o tempo que dedicava a sua energia em prol dos outros.

Até sempre enfermeiro!

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