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Sábado, 3 - Dezembro, 2022

Cá da Terra: Os coveiros das chanfutas

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Osvaldo Gêmo-osvaldoroque7103@gmail.com

JÁ faz por aí uma dezena de anos que aqueles coveiros andam por aquelas bandas a enterrar michafutas, sem se cansarem e, sobretudo, sem arrependimento da tarefa que desempenham de dar o destino final para o pó o que veio do pó.

As michafutas que plantaram nunca mais deram sinal de brotar, apesar do empenho e dedicação que tanto dão naquele seu exercício diário de abrir e voltar a tapar covas.

Vendo que os resultados nunca mais chegam, entenderam os coveiros que deviam fechar as portas para que não haja mais michafutas a serem enterradas – elas dão muito trabalho e os rendimentos ainda não são visíveis.

Dez anos a enterrar michafutas é uma obra. Fechá-las a porta ajudaria a saírem do sono profundo em que se encontram para valorizarem o trabalho dos coveiros.

São eles que para além de plantarem as chanfutas tratam do lugar com amor e carinho para que a sua memória não seja apagada dos vivos que tratam de chamar o sítio de lugar santo e pouco olham para o pobre do coveiro.

Conta um dos coveiros que num desses sábados ele fez um enterro de uma chanfuta jovem, por sinal de boa aparência. Seria um dia normal para qualquer coveiro, mas acontece que foi chamado em pleno sábado de folga. O ajudante não estava em condições de fazer aquele trabalho naquele dia.

Fez o buraco no mesmo lugar de uma chanfuta que já fazia anos enterrada naquele lugar. Aquele velório não saiu da sua mente, ao ver a juventude prostrada ali no chão.  Imaginou o quanto de sonhos estava ceifado para a eternidade, quantos projectos teria ele pela frente.

Testemunhou a dor o choro impiedoso dos corações partidos. Foi frio como um bom profissional e deu o desfecho esperado por todos naquele momento. Colocou a chanfuta dentro da cova e de pá em pá encheram aquele buraco antes vazio. O coveiro por dentro estava um caco, seu corpo se arrepiou aflorando as emoções por presenciar todo aquele evento.

A profissão  do coveiro é lidar com a angustia e dor e se manter firme como pedra, ser silencioso na entrada e na saída, e manter-se inerte diante de tudo, e ser cauteloso, e acima de tudo não temer a morte. Nesta profissão não existe lugar para erros, para a cruelidade. Assim seria se tivesse prazer em fazê-lo.

Não posso dizer que amo o que faço, porque perderia meus sentimentos, faço porque alguém precisa que seja feito, com muito zelo e respeito – confidenciou-me.

Esta eu saquei de um jornalzeco cá da praça. O mesmo anunciava a partida de uma chafuta qualquer. O anúncio da partida é que me pareceu inusitado. Dizia, entre outras coisas, o lugar de nascimento e quando. Fazia depois uma lista dos lugares onde morou, conta sobre o casamento, diz o número de chafutas que deixava. Depois dessa biografia vem a história da morte. A doença é narrada com detalhes, e entra o agradecimento ao médico. Vem então a hora exacta da morte e o número das pessoas enlutadas. O agradecimento se estende a todas as pessoas que prestaram algum auxílio durante a enfermidade. O sacerdote também merece agradecimentos, assim como todos os que acompanharam o enterro, os que mandaram flores e, por fim, os coveiros.

Os jornalzecos cá da praça, vim a saber, afinal sempre trazem coisas semelhantes.

Enfim, cada povo enterra os defuntos a seu jeito. No Michafutene, chafuta com chafuta não fazem grande diferença, mesmo tendo uma vedação requintada a mármore ou a granito. Todos apodrecem, e viram pó. Só o coveiro é que ainda faz pose de vencedor e impede que outras michafutas entrem para o seu destino final.

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