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Quinta-feira, 6 - Outubro, 2022

Num Val Pena: O bar da esquina e… assimetrias!

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Leonel Abranches

MUITAS e muitas luas depois voltei à cidade da Beira. Confesso que a cidade não era de todo a primeira escolha como destino, quer turístico quanto profissional.

Desta vez aportei ao Chiveve com uma missão profissional. O pequeno, mas simpático hotel, de três estrelas, na baixa da cidade, tem a grata particularidade de estar perto de tudo. Desde lanchonetes, mercadinhos, botle stores, ATM e tudo quanto se pode querer à mão.

À terceira noite, depois de uma maratona de trabalho que se prolongou pelo dia todo, dispensei o conforto da cama e procurei me informar na recepção se não haveria um barzito por perto. Coisa pequena. Era uma daquelas noites quentes e por isso pouco convidativas para o leito da cama.

– Barzito?…depende, o que quer concretamente…?” – tentou perscrutar a solícita recepcionista.

“ – Opa, indique-me um lugar onde possa tomar uma bebida refrescante…se tiver música ao vivo melhor…” – Olhou para mim com sorriso matreiro. Confesso que não entendi logo o alcance do sorriso.

“ – Ali ao fim da rua. Vire à direita. Encontrará de certeza um pub aberto. Mas, se quiser uma coisa mais discreta…uma companhia de…”

“- Ná, ná, ná…nada disso amiga.” – Tratei logo de cortar, gesticulando energicamente.

“Quero apenas um lugar simpático para beber uma cerveja e depois xixi cama…alone – e desatei a rir embaraçado e estupidificado. Agora percebia o alcance daquele sorriso matreiro da menina. 

Alguns minutos depois segui o itinerário proposto pela minha amiga da recepção e duas ruas mais abaixo adentrei por um bar. O lugarejo estava meio deserto. Bem no fundo do bar pontificava uma coluna de quase três metros vomitando acordes de uma música roufenha e descalibrada. Não percebi porque raio o volume estava tão alto se apenas seis a oito pessoas se entroalhavam à socapa bebericando álcool vaporizado enquanto expulsavam dos pulmões nuvens de fumo de cigarros. As luzes piscando psicadelicamente entre o lusco e fusco faziam perceber que ali habitualmente “se vive”.

Meio desconfiado e com naturais receios pedi uma cerveja. Enquanto esperava que o barman aviasse o meu pedido, fui metendo conversa com um dos convivas, que, sentado com a coluna vertebral em arco, sorvia solenemente uma mistela estranhamente transparente e esbranquiçada.

“- Então, isto hoje está meio vazio…” – perguntei enquanto aligeirava o cotovelo direito no balcão e aconchegava uma cadeira de plástico que já mostrava sinais evidentes de longevidade etária. 

“- Ainda é cedo patrão…” – resmungou o fulano carrancudo. Sorveu com um enorme gole o que restava do líquido esbranquiçado, espalmou pelo tampo do balcão uma nota de vinte meticais e levantou-se em direcção à saída. De certo que não estava para muita conversa. 

O barman, um tipo com o ventre avantajado e trajando uma camisa interior rota transversalmente, com sinais de já ter sido branca, barba por fazer e mascando um qualquer empapado que descaía sorrateiramente pelo beiço esquerdo, abriu uma espécie de colman bem atrás de si e aportou pelo tampo do bar ruidosamente uma garrafa de cerveja Manica. Preta. Com um gesto brusco das mãos interrompi-o:

“ – Mano, eu não quero Manica. Quero uma Heineken…pequena.”

O tipo olhou para mim incrédulo.

“- Olha-lá, você é daqui?! – perguntou. Estava literalmente aborrecido.

“ -Heineken aqui?! Qual é cena! tazagozar ou qué?!” – o tipo de ventre avantajado e camisa interior quase me fuzilava com olhar atónito. Fiquei com a cara à banda. Não percebia a razão para tanto rebuliço do homenzarrão.

“ – Aqui na banda não andamos com finórias de machanganas…quer cerveja, bebe Manica. Essas coisas de Heineken pequena não é aqui…nem temos isso” – e com um golpe de mestre abriu a garrafa e arrastou-a para junto de mim olhando-me compulsiva e fixamente. Engoli em seco. O cenário não me agradava. A música continuava alta. Exageradamente alta. E estava bem de caras com um gajo de camisa interior rota, zangado e que continuava a olhar-me compulsiva e fixamente. Parecia um bandido de filmes indianos.

“ – Se não vai beber a cerveja paga na mesma, já está aberta. Bebo eu…” – sentenciou.

 Paguei sem pestanejar. Cirandei dali e já no átrio do hotel a simpática recepcionista perguntou espantada:

“- Já de volta?! Não gostou do barzinho?”“ – Já de volta sim! Não tinham Heineken pequena…” – respondi com um sorriso amarelo!

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