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Segunda-feira, 26 - Setembro, 2022

NUM VAL’PENA: Não toma banho com água fria esse aí…..

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Leonel Abranches

A OPERADORA de telefonia móvel com as cores verde-e-amarela era a única no país. Ter um telefone celular na altura elevava-te para um pedestal impressionante. Os funcionários das primeiras lojas da telefonia verde-e-amarela não cabiam em si de tanta importância.

Principalmente quando os serviços de telefonia passaram a ter cartões pré-pagos. Aí é que a febre começou. O pessoal começou a pavonear-se com aparelhos de telefonia móvel pendurados na cintura e à vista. Um dia desses com o sol abrasador e insolente estávamos perto de trinta pessoas entulhadas dentro de uma daquela lojas verde-e-amarela.

Cada um de nós se contorcia procurando melhor posição para preencher os longos formulários para a aquisição e operacionalização do cartão pré-pago. O aparelho de ar-condicionado começava a dar sinais de falência técnica. Ronronava como uma gata no cio. No fundo da sala um televisor enroscado na parede passava um jogo de futebol qualquer da liga inglesa. Sem som.

O ambiente era de relativa agitação. Tinha gente indo e voltando do balcão de atendimento. A experiência no preenchimento dos formulários era insípida, pois alguns clientes voltavam do balcão com o cenho carregado e com a indicação ríspida da funcionária exageradamente betumada:

“ – Aqui e aqui não é para preencher papá! Assina aqui…como assinou no seu BI…” – e a lengalenga continuava dentro da lojeca. Era como se estivéssemos a bordo de um submarino. Um submarino verde-e-amarelo. Entretanto, a porta da loja voltou a abrir-se e adentrou um homem de meia-idade. Dir-se-ia que tinha entre quarenta e quarenta e cinco anos de idade. Estatura mediana. O queixo quadrado fazia recordar um boxeur. Dirigiu-se ao balcão e pediu um formulário. Posicionou-se num canto e desatou a preencher os longos e irritantes quadradinhos. Alguns minutos depois ouviu-se um ligeiro “toc toc” do vidro lateral da loja. Cada um de nós se entreolhou à procura do destinatário do “toc toc” no vidro. Do lado de fora um jovem rapaz, com o uniforme de uma escola privada e sacola às costas, esmerava-se para fazer perceber a quem se dirigia. Toquei no ombro do senhor que acabara de entrar e balbuciei:

“- Acho que o jovem ali está a dirigir-se a si….” – o homem virou-se contrariado e levantou as palmas das mãos na direcção do jovem enquanto falava em surdina e para si mesmo:

“ – Então pah…O que foi…? tá quieto aí que eu já vou! Ora bolas” – Parecia um tuga do Algarve ou Trás-os-Montes. Entretanto, o jovem do lado de fora com o dedo indicador da mão direita bateu continuamente o pulso esquerdo mostrando claramente que estava já sem tempo. O senhor voltou a virar-se na minha posição e ainda com o cenho carregado rosnou:

“ – É meu filho aquele patife. Esses pirralhos pah…”  – e continou a tentar acertar no preenchimento labiríntico do formulário. Cinco minutos depois outra vez o “toc toc” com a ponta cruzada dos dedos em forma de nó. Desta vez seguido de um “dum dum” com o punho da mão direita. Mais violento. O vidro lateral da loja verde-e-amarela estremeceu. Logo a seguir outro conjunto de “toc toc” seguido de outros “dum dum dum” com os punhos das duas mãos. Claramente que o rapaz estava possesso, fora de si. Dentro do submarino verde-e-amarelo o pessoal entrou em pânico colectivo. O que estaria a acontecer de tão grave ao jovem? Entretanto, o pai, como que a contrariar todo o cenário de pânico gerado, continuou a preencher o formulário impávido e sereno. Voltei a tocar no ombro esquerdo do homem e anunciei com um timbre de voz fúnebre:

“- Mais velho, parece que o teu puto está a passar-se lá fora…está a tentar chamar à sua atenção. Se calhar é melhor….” –  e o “mais velho” interrompeu-me bruscamente:

“- Deixa-la aquele gajo…faz sempre birra quando está zangado… está quase na hora dele ir ao ginásio eu sei” – e continuou impávido, sobretudo sereno. Do lado de fora do submarino verde-e-amarelo o espectáculo do jovem zangado continuava. Mesmo com a intervenção do caquético segurança privado. Cerca de meia hora depois, alguém que me pareceu ser o chefe da lojeca, convidou o homem a retirar-se e pôr cobro ao tumulto que se foi gerando do lado de fora entre o jovem zangão e o segurança desprovido de carnes e com uma geografia física fora do comum. O homem murmurou qualquer coisa ininteligível contra a mãe do gestor e retirou-se amuado do submarino. Acto contínuo os comentários entre os clientes:

“- Menino com berço de ouro dá nisto…” – dizia uma senhora com marcas das agruras do tempo.

“- É verdade mãe…e o problema é nosso. Nós é que permitimos coisas dessas. Isso não pode acontecer na minha casa….kwapava muito mal aquele mal educado…” – reiterou um senhor com a cabeça desestruturada por uma calvície obscena.

Entretanto, no fundo da loja, sentado num banco de metal, um rapaz com olhar avoado e indiferente rematou:

“- Não toma banho com água fria aquele ali…”

O rapaz não poderia ter feito melhor e enfático resumo do episódio.

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