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Segunda-feira, 26 - Setembro, 2022

Nwadjahane: “Senta-baixo”

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Atanásio Zandamela

QUANDO, por aqui, ouvi pela primeira vez a palavra “senta-baixo” surgiu à minha cabeça aqueles locais de venda e consumo de bebidas de fabrico caseiro. Pelo menos é assim como pensava antes de chegar à terra de Nwadjahane.

Por cá entende-se “senta-baixo” como sendo mercado informal. É assim como é designado o de Chongoene, que está localizado próximo do novíssimo e rejeitado mercado formal e bem próximo da sede distrital.

Naquele “senta-baixo” vende-se um pouco de tudo, sobretudo produtos de época. Nwadjahane, que tem procurado percorrer esta província, há dias, quase presenciou um acidente no qual estaria envolvido um dos vendedores.

Normalmente, os clientes daquele “senta-baixo” estão em trânsito para a cidade de Xai-Xai ou Maputo ou no sentido contrário.

Há dias, um cliente parou no sentido contrário ao habitual. E uma das vendedoras pôs-se a correr sem reparar para os dois sentidos, como mandam as regras elementares quando se pretende atravessar uma estrada. E, como resultado disso, quase que ia ser atropelada. Com o susto deixou cair a bacia contendo banana. Mal menor, pois o desfecho poderia ter sido fatal, a avaliar pela velocidade dos carros que normalmente circulam na Estrada Nacional número Um (EN1).

Ao assistir aquele episódio, recordei-me que, há dias, a Assembleia Provincial de Gaza desafiou o executivo provincial a encontrar soluções definitivas para a operacionalização de vários mercados formais votados ao abandono. Na altura, o presidente da AP, José Tsambe, considerou a questão de “desoladora” e por isso apelou para “uma maior sensibilização dos nossos concidadãos a fazerem um aproveitamento integral dos mercados construídos à custa de muito sacrifício que, a nosso ver, estão abandonados”.

Como representante do povo, Tsambe mostrou preocupação com o facto de se ter gastado dinheiro para a construção de infra-estruturas que não estão a ser usadas, porque ninguém as quer.

No entanto, para Nwadjahane, mais do que a preocupação com os valores gastos nestes empreendimentos está a questão do bem maior, que é a vida. Continuando a vender naquelas condições que o “senta-baixo” oferece, os vendedores não estarão, certamente, a protegerem esse bem maior. São vários os riscos que se correm no “senta-baixo” de Chongoene, em particular.

Estranho é esse paradoxo. Temos, por um lado, os que reclamam o cenário deplorável dos mercados em que exercem a actividade, e, por outro, os que trocam uma infra-estrutura com mínimas condições de segurança por um local inseguro e que não observa a questão de higiene.

Por que será que assim procedem? Perguntei ao companheiro de viagem que, por sua vez, sem hesitação, disse: “é o gosto do proibido… talvez se as autoridades legalizarem o negócio informal, provavelmente maior parte deles quererá exercer a actividade no mercado formal. As pessoas gostam de fazer o que não é aceite, andar em contra-mão…”

Poderia ter questionado este “gosto pelo proibido, pela contra-mão” mas lembrei-me que houve quem me disse, certa vez, que: “quando algo ou alguém passa diante dos nossos olhos com o cartaz de proibido, imediatamente parece que o nosso lado mais aventureiro e de risco se activa para alcançar esse desafio”…

E a triste conclusão a que se chega é de que se gastou dinheiro para construir mercados que ninguém queria. É assim em Chongoene, cuja iniciativa foi financiada pela União Europeia, no âmbito do Projecto de Desenvolvimento Económico Local (PRODEL) e inaugurado em 2019. No mesmo distrito existe o mercado de Nhacutse, que há muito aguarda por ocupação. Na mesma situação encontram-se os mercados de Massangena e Mabalane, construídos no âmbito do mesmo projecto.

Já adquiri frutas no “senta-baixo”. Mas, que tal se deixássemos de o fazer neste local?

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