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Segunda-feira, 26 - Setembro, 2022

XIGOVIYA: Antoninho Bias

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Artur Saúde

TINHA por aí uns dez anos de idade. Estava sentado na esteira debaixo de uma mangueira que dá acesso ao quintal da minha casa. De lado, uma abacateira, mais ou menos defronte da porta principal da casa do meu tio, Paulo. A porta estava aberta. Era dia de calor. Sob a abacateira está sentada a minha avó, mãe do meu tio Paulo, irmão de pai do meu próprio pai. De repente ouvem-se sirenes da escolta presidencial de Samora Machel, indo ao Estádio da Machava para mais um comício popular. Acto de massas farto de emoções acabadas de nos abater pela euforia da festa da independência nacional. Esse era o dia 24 de Julho de 1975. O dia em que se anunciaram as nacionalizações dos serviços funerários, dos prédios de rendimento. Das escolas e unidades sanitárias particulares. Dos edifícios das igrejas, enfim! Os sons trepidantes das sirenes ouviam-se inicialmente de longe e se elevavam à medida que a comitiva se aproximava da zona em que nos encontrávamos. Enquanto isso, muita malta corria até à Av. da Namaacha para ver o Presidente Samora e sua comitiva, entre a qual estava também o Antoninho Bias. Esta é a imagem que ainda se crava na minha memória associando-se a tantas outras que retive. Anos mais tarde, creio que no início da década de 1980, Antoninho viria a inscrever-se para ir trabalhar numa empresa na República Democrática Alemã que levou muitos jovens moçambicanos para aquele país, na altura de orientação socialista. Regressou quando o muro de Berlim se desmoronou, com o fim da guerra fria e voltou a conviver normalmente connosco. Sem preconceitos que muitos tinham por terem habitado alguns escassos anos na Europa. Antoninho continuou firme, vertical e sem nenhum complexo de ter “fracassado” na RDA. Encarava a vida e as coisas com muita naturalidade, tal como soltava o seu sorriso entre amigos, sempre que fosse possível. Não foi dos “madjermanes” que se vangloriou por ter comprado algum mobiliário ou “MZ”, muito menos de tê-lo vendido quando os parcos “marcos” trocados por metical desapareceram das suas mãos. Antoninho Bias foi encarando a vida como ela é. Do que ainda retenho facilmente na minha memória foi um dia termos eu, José Herminio e Lucilo, seu irmão mais novo, ficado agastado porque, nessa noite de sábado, iríamos para uma farra de arromba algures na Matola “F”. Já que os organizadores dependiam de nós quanto à música, a festa não podia começar sem que nos fizéssemos ao local com o aparelho “Sharp”, cujo som e suas melodias atraiam muita gente das nossas relações. Passavam mais de uma hora de atraso e o Antoninho não aparecia com o aparelho no local combinado. Muitas diligências redundaram em fracasso, até que, inesperadamente, ele apareceu. Esperando nós que se desculpasse, disse: “É bom atrasarmos um pouco, para a nossa chegada ter piada. Já com todo o pessoal desesperado”. Apanhamos o autocarro até ao local da festa. Na verdade esperavam já com murmúrios à mistura, molhando a garganta com a “Toranjinha”, bebida alternativa da época de crise para a juventude. A farra arrancou e terminou em grande pela madrugada de domingo. O segundo encontro marcante que tive com o Antoninho foi quando me cruzei com ele em frente à actual Universidade Pedagógica-Lhanguene, perto do semáforo da ponte. Trazia um saco plástico na mão. Disse-me que voltava do “Terra Mar” para onde fora comprar alguns parcos quilogramas de cabeça de peixe. Eu não sabia que isso era lá vendido e encorajou-me também a comprar alegando que era um prato óptimo com água e sal, depois de uma “torta” do dia anterior. “Evite mandar a tua mulher, porque ela pode ver outras coisas no supermercado, atrapalhar-te a vida e comprar outras coisas”, alertou-me.

Depois disso vimos nos esporadicamente em algumas ocasiões, no bairro, sempre que calhasse. Era mais alto que o seu irmão Maninho e uma outra mais nova, cujo nome não me vem à cabeça agora.

Nunca tive dúvidas de ter lidado em vida com um homem do bem. Prova disso foram as acções e mensagens de solidariedade que se trocaram no grupo de “Whatsapp” de amigos de infância, que igualmente faço parte, quer quando adoeceu, quer quando ficou de baixou e teve alta do hospital.

O afecto estendeu-se até ao dia da morte e funeral, no cemitério de Lhanguene. Foi-se o homem do bem, o nosso guarda-redes, na equipa do bairro que aos domingos de pelada sentirá a sua falta. Adeus António Bias!

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