25.6 C
Maputo
Segunda-feira, 26 - Setembro, 2022

Xigoviya – Os livros do tio Paulo

+ Recentes

Artur Saúde

O TIO Paulo era um senhor de idade que decidiu, em seus tempos livres, dedicar-se às explicações complementares de lições que eu aprendia na escola, durante os meus primeiros passos de iniciação escolar, em tenra idade. Para ele não havia outra coisa que lhe fizesse dispensar uma boa leitura de almanaques e outros livros que fossem sobre cultura geral. Foram alguns desses livros que me despertaram o interesse e o gosto pela leitura, nessa altura. Ele também adorava ler romances em língua inglesa. Uma relíquia livresca cujo acervo ainda hoje se conserva num dos compartimentos da sua modesta casa de madeira e zinco que mais tarde se tornou de alvenaria, por conta do que ganhava nos Caminhos de Ferro de Moçambique. Sempre que regressasse do serviço ou estivesse de folga, metia-se nesse “hobbie “maravilhoso e divertido de leitura. Assim se tornou autodidacta. Foi se cultivando desta maneira, desafiando qualquer um que ousasse consigo conversar, ora em português, ora em inglês. Foi dos primeiros autodidactas que conheci, com quem aprendi a ensaiar e a soltar as primeiras palavras e a escrever as primeiras letras nestas duas línguas. Era formidável aquele meu tio. Um exímio professor revestido de uma didáctica incrível. Com uma arte de ensinar bem afinada. Lembro-me que as primeiras palavras que soletrei e comecei a escrever em língua inglesa foi por meio das famosas e lindas canções contidas nos álbuns “Let It Be” dos “ Beatles”, bem como do “Exile On Main St” dos “The Rolling Stones”. Ele cantava para mim algumas canções destes álbuns para me fazer assimilar facilmente a apreensão frásica e de conteúdo em inglês, por exemplo. Eram tantas estratégias de aprendizagem que empregava não só para facilmente aprender, como também para temperar essa aprendizagem com a beleza das melodias dessas canções que pontificaram a juventude, no início da década de 1970. Era assim aquele meu tio Paulo. Poucos sabiam que o seu conhecimento de língua inglesa derivava dessa dedicação. Desse autodidactismo. Dessa solidão consigo próprio que lhe proporcionava conversar em silêncio, dialogando com os seus livros e dessa forma confrontar a informação nova com a informação prévia e de suas próprias experiências e, paulatinamente dar lugar ao novo estágio de conhecimento e sabedoria. Fazia isso tudo na maior das calmas, sentado numa cadeira de madeira à sombra daquela mangueira, sorvendo aos poucos o seu chá, numa grande chávena de alumínio, acompanhado de uma fatia de pão, invariavelmente com manteiga ou com “badjias” de que tanto gostava. Dele aprendi a tomar o livro como um grande amigo que não se devia machucar ou rasgar. Tinha que se conservar a todo o custo. Por essa razão nunca o vira a emprestar a qualquer um. Mesmo que fosse gente próxima. Lembro-me que certo dia, depois de uma das nossas lições, deu-me a tarefa de ler uma pequena fábula de quatro parágrafos em casa como forma de no dia seguinte argumentar de forma lógica e sustentada a moral que tinha compreendido dessa mesma história. Na ingenuidade da idade, fui fazendo algumas anotações à lápis sobre algumas linhas do texto que continham os conteúdos, que me pareciam fundamentais na construção da minha reflexão. No entanto, não apaguei devidamente tais anotações e na hora de devolver o livro ouvi umas “tantas e boas” por essa asneira. Outro facto que não me esqueço foi quando lhes informei que tinha passado de terceira para a quarta classe. Ficou tão satisfeito que foi comprar uma garrafita de vinho para ele e uma de “limonada” para juntos festejarmos. Foi uma tarde tão emocionada para ele que falou tanto de um tema sobre a “importância de aprender”, baseado no livro que vasculhou dos seus alfarrábios, cujo autor não me recordo. Finda a tarde de conversa, foi para dentro de casa e guardou o livro. Despedimo-nos e separamo-nos. No dia seguinte veio ao meu encontro preocupado, dizendo que nunca mais achava o livro. Confessou que “na emoção da satisfação pela sua passagem de classe, fiquei sem saber para que lote do molho de outros livros arrumei o que vimos ontem”, disse visivelmente preocupado. Viria a saber que o tinha localizado tempos depois, para a nossa grande satisfação. Foi assim que aprendi a valorizar o livro. Tio Paulo morreu e passam longos anos e os seus livros continuam intactos.

Facebook Notice for EU! You need to login to view and post FB Comments!
- Publicidade-spot_img

Destaques