A transição “inadiável” da biotecnologia clássica para moderna

Uso da biotecnologia responde aos impactos das mudanças climáticas

EDÍLIA MUNGUAMBE

A BIOTECNOLOGIA moderna tem vindo a desempenhar um papel fundamental no contexto da adaptação às mudanças climáticas. Por meio da engenharia genética é possível desenvolver culturas agrícolas mais resistentes a seca, pragas e variações extremas de temperatura, garantindo a segurança alimentar num cenário de clima instável.

O melhoramento de culturas através da biotecnologia acompanha a dinâmica do mundo, caracterizada por novas doenças e problemas ambientais, constituindo-se como um aliado importante na busca por soluções sustentáveis e inovadoras, para mitigar os impactos das mudanças climáticas.

O país já usa, há alguns anos, a biotecnologia clássica da cultura de tecidos, um conjunto de técnicas que permite o crescimento e a multiplicação de células, tecidos ou órgãos de plantas, animais e microrganismos em laboratório, sob condições controladas e assépticas.

Entretanto, o investigador do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), Pedro Chaúque, considera imprescindível a transição para a biotecnologia moderna, com vista a enfrentar os desafios actuais, principalmente as mudanças climáticas, crescimento populacional e a segurança alimentar e nutricional.

Neste contexto, o IIAM desenvolveu e testou variedades de milho geneticamente modificado nos distritos de Chókwè, Lichinga e Ribáuè, nas províncias de Gaza, Niassa e Nampula, respectivamente, cujos resultados são positivos.

Contudo, esse milho ainda não foi lançado, sendo um dos motivos a falta de aceitação por alguns produtores.

“Há uma onda de oposição à engenharia genética. Muitas vezes por falta de informação. Quando falamos de transformação genética, ou seja, levar gene de uma espécie para outra outra, alguns produtores ficam assustados, mas não sabem que eles mesmos também tem genes”, explicou.

Avançou que outros desafios incluem a instalação de laboratórios para realizar pesquisas no país, capacidade técnica, consciencialização da sociedade, sobretudo alguns agricultores.

Enquanto isso, o instituto continua a realizar estudos e melhoramento de variedades de culturas por via da biotecnologia clássica como a mandioca, batata-doce e rena.

Esta técnica, explica o investigador, permite a produção de várias plantas idênticas a partir de uma única, garantindo uniformidade genética e qualidade, sendo especialmente útil para espécies de difícil propagação por métodos tradicionais, como estacas.  

RESPOSTA AO CRESCIMENTO POPULACIONAL

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COM o intenso crescimento populacional e desenvolvimento humano, a questão ambiental tem sido alvo de discussão no meio social e científico, levantando preocupações com o futuro.

Um dos pontos primordiais dessas inquietações é a escassez de alimentos, que poderá afectar milhões de seres humanos. Estima-se um total de nove biliões de pessoas para 2050, e um consumo de comida nos próximos 40 anos maior que toda a história da humanidade, sendo necessário duplicar a produção mundial de alimentos.

Segundo o investigador Pedro Chaúque, esta realidade desafia os cientistas a descobrir novas formas de cultivo, através do melhoramento genético de plantas para assegurar o exercício da actividade agrícola em situações adversas.

Explicou que o crescimento populacional reduz as áreas de cultivo devido à procura de espaços para habitação, por isso o recurso à biotecnologia moderna é imprescindível para a segurança alimentar e nutricional, sobretudo de famílias que têm na agricultura a principal fonte de renda.  

Acrescentou que através do desenvolvimento de culturas mais resistentes a pragas, doenças, condições climáticas adversas e com maior teor nutricional, pode-se optimizar o uso de recursos como água e fertilizantes e reduzir a dependência de agro-tóxicos.

Destacou que este processo permite aumentar a produtividade e a quantidade de alimentos disponíveis para uma população crescente, bem como a redução de perdas e desperdícios.

“Estas tecnologias ajudam a aumentar a produtividade e é possível garantir um aumento rápido, ou seja, conseguir-se volumes de alimentos maiores que podem satisfazer a população num espaço pequeno do terreno”, sublinhou.

ACELERAR A EVOLUÇÃO DAS PLANTAS

SEGUNDO Arsénio Ndeve, engenheiro agrónomo e docente na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a biotecnologia moderna é essencial para acelerar a resposta das plantas no que concerne à produtividade e valor nutricional.

Apontou também a vantagem da gerar produtos em curto espaço de tempo, relativamente aos métodos tradicionais, bem como melhorar a qualidade dos alimentos através da transferência de genes.

“Podemos ter uma variedade de plantas com capacidade de proteínas muito baixa. Neste caso pode se recorrer à manipulação de tal forma que se obtenha alto teor proteico, por meio da biotecnologia clássica, assim como da moderna”, sublinhou.

O investigador referiu que na abordagem de melhoramento tradicional, que é a biotecnologia clássica, identifica-se uma planta com alto conteúdo de proteína e faz-se o cruzamento com uma outra espécie desejada.

Contudo, este processo, explica o engenheiro,  é muito lento podendo durar entre 10 e 12 anos a trabalhar-se na mesma planta, para se alcançar o resultado final desejado.

Entretanto, acrescenta, as abordagens modernas aceleram os organismos que ditam a transferência de características, construção e desenvolvimento de novas variedades.

“Em pouco tempo pode-se identificar atributos genéticos numa determinada planta, responsáveis pelas proteínas. Assim manipula-se os genes molecularmente por forma a incorporá-los numa outra espécie, um processo que pode levar menos de seis anos”, sublinhou.

Sobre o futuro da biotecnologia no país, Arsénio Ndeve referiu que se Moçambique se limitar apenas à biotecnologia clássica corre risco de ficar estagnado enquanto as outras nações  avançam.

“Muitos países africanos estão a avançar como o Quénia, Nigéria e Burkina Faso. Daqui a 10 anos o nosso país pode estagnar-se ou avançar. A biotecnologia requer investimento e não apenas projectos”, frisou.

Depois de participarem na capacitação sobre boas práticas agrícolas, Clara José e Adriano Tivane, produtores nas províncias de Inhambane e Maputo, respectivamente, notaram uma grande diferença na produtividade e qualidade das culturas.

“Aprendi sobre a importância de escolher bem as variedades, fazer o preparo adequado do solo, controlar pragas de forma mais eficiente e usar correctamente os insumos. Paralelamente, passei a entender melhor como manejar o solo de forma sustentável, respeitando o meio ambiente e garantindo a fertilidade para as próximas safras”, sublinhou Clara José.

Adriano Tivane disse que o conhecimento adquirido transformou a maneira de trabalhar nos campos e espera não só o aumento da produção, como também a valorização dos produtos no mercado.

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