ALBERTO ZUZE
A FOME começa a afectar o indivíduo muito antes do seu nascimento. Em Moçambique, milhares de mulheres chegam à gravidez sem os nutrientes necessários para sustentar uma nova vida.
A pobreza, as alterações climáticas e a insegurança alimentar transformam o ventre materno no primeiro palco de uma crise silenciosa que pode marcar o novo ser pela vida toda.
Antes de afectar a criança, a desnutrição começa no ventre da mãe. Apesar dos progressos registados na última década, Moçambique continua entre os países com níveis elevados de desnutrição crónica infantil.
Dados do Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS 2022-2023) indicam que 37 por cento das crianças menores de cinco anos sofrem de atraso de crescimento, uma redução face aos 43 por cento registados anteriormente, mas ainda considerada uma prevalência muito elevada.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma persistente crise de insegurança alimentar.
O Programa Alimentar Mundial estima que milhões de pessoas continuam sem acesso regular a uma alimentação suficiente e nutritiva, num contexto agravado pela pobreza, pelos conflitos armados e pelos fenómenos climáticos extremos, que afectam a produção agrícola e reduzem a capacidade das famílias de garantir uma dieta diversificada.
As alterações climáticas tornaram ainda mais frágil a segurança alimentar das comunidades rurais. Secas prolongadas, ciclones e cheias destroem culturas afectam fontes de rendimento e elevam o custo dos alimentos essenciais. Quando a produção falha, a consequência não se limita às machambas: chega aos mercados, às unidades sanitárias e, sobretudo, ao corpo das mulheres grávidas.
Hoje, para muitas famílias rurais, cultivar a terra deixou de ser uma garantia de sobrevivência. A queda irregular da chuva, alternando entre longos períodos de estiagem e precipitações intensas, compromete as colheitas e reduz o acesso a alimentos ricos em nutrientes.
O resultado desta crise sente-se para além da escassez de comida: manifesta-se nas maternidades, nos centros de saúde e nos primeiros momentos de vida das crianças.
Durante os nove meses de gestação, Vitória Ernesto, residente no bairro Belo Horizonte, em Boane, acreditava estar a fazer tudo o que podia para proteger a filha. Mas, numa família marcada pelo desemprego do marido e pela escassez de recursos, garantir uma alimentação equilibrada era um desafio diário.
Na maioria dos dias, as refeições resumiam-se a xima e chá. Carne, ovos, fruta e outros alimentos ricos em nutrientes eram consumidos apenas ocasionalmente.
“Eu tinha fome quase todos os dias. Mas aguentava porque pensava que era normal na gravidez”, recorda.
O nascimento da filha trouxe a confirmação das dificuldades enfrentadas durante a gestação. A bebé nasceu com baixo peso e precisou de acompanhamento pelos serviços de nutrição.
Três anos depois, continua a ser monitorizada devido às dificuldades de crescimento registadas nos primeiros meses de vida.
A história de Vitória ilustra uma realidade vivida por muitas mulheres moçambicanas: a pobreza, a alimentação pouco diversificada e o acesso limitado à informação e aos cuidados de saúde podem comprometer o estado nutricional da mãe e afectar o desenvolvimento da criança ainda antes do nascimento.
Para os profissionais de saúde, estes casos demonstram que a desnutrição materna não resulta apenas da falta de alimentos, mas também da dificuldade em garantir uma dieta variada, rica em proteínas, vitaminas e minerais essenciais durante a gravidez.