Até quando o viver tornou-se revender?

Delton Marizane

A ERA da revenda inflacionada: “nhonguista”

É quase impossível nos dias de hoje beneficiar de determinado bem ou produto sem a intervenção de um intermediário, maioritariamente jovem, designado “nhonguista”.

“Nhonguista” é um indivíduo que revende um certo bem ou produto inflacionando-o. Ninguém abraça esta actividade por “hobby”, mas por falta de alternativa. O emprego formal é escasso.

Esta actividade funciona da seguinte maneira: o indivíduo estabelece acordo com proprietários ou gestores de estabelecimentos comerciais que consiste em levar os produtos ou bens como telemóveis, carregadores, televisores, capas de celulares, auriculares e publicar nas suas redes sociais e nos grupos de contacto. Depois de despertar a atenção dos compradores, ele estabelece a sua margem de lucro que pode variar entre 500 e 2000 para proceder à entrega. Por exemplo, um produto comercializado a 25 mil meticais na loja pode custar até 28 mil. Quando há muita procura ou escassez, o valor pode ser muito mais elevado.

O mesmo sucede em relação à venda de imóveis. Geralmente, anda bem informado, tem conhecimento de quem tenciona arrendar uma residência, quem quer ceder uma parcela de terra, quem tem viatura para alugar, etc.  

Para o efeito, faz a foto, publica e leva o interessado a visitar, trata da papelada e determina um mês de renda como comissão ou 5% a 10% se se tratar de venda.

O mesmo acontece quando se trata de viatura. Se o interessado precisar de uma viatura para estar ao serviço de táxi de aplicativo, o “nhonguista” tem contacto do dono, trata de contrato e leva a sua parte.

Existe uma palavra que quem já comprou com a intermediação do “nhonguista” conhece: “COMEBACK”.

Mas, assim como qualquer outra relação existente no mundo, prevalecem altos e baixos, momentos bons e maus. Mas o que é “comeback”? É quando o produto ou bem é devolvido. É aí que o sonho do “preço mais rápido” vira dor de cabeça, sobretudo quando:

  • A qualidade não coaduna com a promessa: comprou-se um telefone novo e, volvidos três dias, a bateria está “inchada”. A capa descola. O carregador já não está a reagir devidamente.

Quando isso acontece, começa o “comeback”. O ditame não postulado, e severo. O reembolso só ocorre quando o proprietário ou gestor do estabelecimento devolve o dinheiro ao “nhonguista”. Este é um processo moroso que pode levar uma a duas semanas, até um mês.

Entretanto, o cliente, em desespero, diz: “preciso do meu dinheiro agora”. E o “nhonguista” diz o seguinte: “irmão, ainda não me devolveram, assim que cair te mando”. Assim, os dois discutem e comprometem o respeito mútuo e amizade. Aliás, há os que primam pela desonestidade e somem e bloqueiam o contacto.

Então, por que o cidadão continua a comprar com a inetrvenção do “nhonguista”?

Porque o sistema formal falha, o gestor da loja não faz entrega às 20.00h; a agência imobiliária pede três meses de caução; o “stand” exige entrada de 40 a 50 por cento. Entretanto, o “nhonguista” é eficiente, “dá corpo às balas”.

Por que esta prática se tornou viral na sociedade?

  1. Falta de emprego formal. A universidade forma, mas o mercado não consegue absorver. Então, o jovem usa o que tem: tempo, telefone, comunicação e rede de contactos. Tornar-se “nhonguista” custa zero metical para começar.
  2. Desconfiança no formal: boa parte das pessoas baseia-se na confiança.
  3. O modelo de lojista: boa parte dos produtos não sai do armazém dos “nhonguistas”, mas do comerciante. Ele é apenas a força de vendas e a logística. Assume o risco de rua.

Diante desta narrativa, eles são vilões ou empreendedores?

Isso depende do nível de perspectiva de quem vê.

Para uns são vilões porque usam a urgência para inflacionar sem medida; quando mostram uma casa em condições precárias, só para te cobrar deslocamento; quando vendem um telefone “novo” que é recondicionado. Outros entendem que são empreendedores porque solucionam um problema real, visto que criaram um mercado paralelo. O formal é lento, caro e distante.

Enquanto o desemprego jovem prevalecer, haverá uma forte permanência de “nhonguistas” e proibir estaríamos a empurrar para a clandestinidade.

Entretanto, o que faremos?

Escamotear ou banir não irá resolver. O “nhonguista” existe porque há uma lacuna para fechar.

  • Cliente, pergunte antes de pagar: e se der um “comeback” como é que irá ficar esse negócio? Levará quanto tempo para solucionar? Como meio de prova, arrole todos os comprovativos ou conversas, testemunhas susceptíveis do direito do contraditório.
  • “Nhonguista”, caso queira viver da revenda inflacionada, crie boa reputação. Informe atempadamente, respeite os prazos, devolva mesmo que demore. Explique o risco. Porque um “comeback” mal resolvido queima 20 clientes futuros.
  • Proprietário ou gestor do estabelecimento comercial e o Estado, formalizem a prática, criem contratos de revenda com comissão fixa, prazo de devolução claro e um fundo para cobrir reembolso rápido. É igualmente importante que o Estado crie um fundo a título de empréstimo para a formação destes jovens de modo a saírem do “nhonguismo” para se tornarem empresários.

Recomendações

Revender com margens não desenvolve um país. Gerar empresas que solucionam rapidamente os problemas é viável. O crescimento provém do valor criado, não da precificação inflacionada.

Imaginemos que 200 jovens que vivem de revenda inflacionada criassem 200 empresas focadas em resolver problemas reais da sociedade, o crescimento de Moçambique seria inevitável. O valor criado escala mais do que a margem extraída.

O negócio em si gera um valor social.

Conclusão

Até quando a única forma de sobreviver vai ser tirar de um para dar a outro com lucro no meio?

Os “nhonguistas” são reflexo de um país onde trabalhar ficou difícil. Enquanto não se atacar o desemprego, a inflação e a desigualdade de acesso, a situação vai prevalecer.

O “nhonguista” é uma via de mão dupla, expõe o vazio de protecção do Estado. Ele salva quando você precisa de um produto com carácter de urgência, mas lhe complica quando dá “comeback”.  

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