| KÁTIA NASCIMENTO* |
O POUCO que sei de Moçambique vem dos seus autores e, principalmente, da obra de Paulina Chiziane “Por quem vibram os tambores do além”, essa estrondosa mulher, essa maravilhosa escritora.
Já não tenho mais adjectivos para falar sobre ela. Mas o dicionário me deu alguns significados para estrondoso, que podem vir a calhar:
1) Barulhento: algo que produz um estrondo ou um som muito forte.
2) Notável: um sucesso ou acontecimento que chama muita atenção e ganha fama.
3) Luxuoso: algo feito com muita pompa ou ostentação.
Paulina Chiziane é tudo isso: barulhenta, pois a sua literatura faz muito barulho, causa impacto, mexe com as estruturas; gosto da metáfora das placas tectónicas, Paulina Chiziane é como placas tectónicas, mexe tanto connosco que causa um tsunami, ela é a própria força da natureza. E também, claro, notável e luxuosa, é um sucesso indiscutível e a sua escrita tem uma simplicidade pomposa, pois ostenta a sua poesia até o final da obra.
Para a nossa sorte, Paulina Chiziane tem discípulas. Sim, porque tudo o que ela disse, nos seus livros, todas as feridas que abriu, escancarou, corajosamente, surtiu efeitos, os quais, autoras moçambicanas, e não só, certamente, seguem os seus passos.
E ai de quem não o fizer, perderá e muito!
Trago aqui hoje Énia Lipanga, e o seu conto Segura-te, ó rapaz!, que está em As Pauladas do Amor – Uma aventura pelas novas histórias de Moçambique, livro de contos organizado por Eduardo Quive e Jessemusse Cacinda. Perdoem-me os organizadores a referência ao título, mas o conto de Énia não tem nada de novo a não ser a autora e o seu estilo, pois o tema que ela aborda é história velha, não só em Moçambique, mas no mundo todo. E, infelizmente, embora haja um avanço do pensamento masculino (quero crer que muito!), essa discussão ainda é necessária até que, para “Chico e seus amigos, o corpo da mulher deixe de ser algo público, do qual acreditam ter total domínio”.
O conto fala sobre a difícil tarefa de ser mulher e não ter liberdade para tal, pois tudo o que aparece para o homem são os seus atractivos físicos, que devem ser escondidos para serem objectos do seu prazer. Ao ponto de andar na rua ser uma árdua tarefa feminina, em que umas se intimidam, outras tentam estratégias para não se deixarem abater. “Algumas envergonhavam-se, refugiando os olhos no peito, outras deleitavam-se na sedução ampliando o bailado das melancias; outras sorriam timidamente, e ainda havia aquelas que buscavam outros caminhos. Mas quem pode fugir do destino? Fugir do corpo não é como fugir da sua própria casa”.
Pois bem, querida Énia, o corpo da mulher é como casa de tartaruga, não tem como evadir-se de si mesmo.
Enquanto isso não muda, é preciso muitas mais Paulinas e Énias, e tantas outras que conhecemos, que escrevem sobre o assunto porque as velhas (e ruins) histórias se repetem.
*Kátia Nascimento – escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com
Foto: © Féling Capela