KÁTIA NASCIMENTO
ESTOU prestes a conhecer Moçambique (um pouquinho dele, né?). Por enquanto, tudo que sei é fruto de leituras de romances, contos e poesias, incansáveis estudos, vídeos, e por meio da voz de amigos que lá estiveram.
Mas, de repente, encontrei, aqui em Portugal, precisamente no sebo mais antigo de Lisboa, Sá da Costa, a 7.ª edição de “A Varanda do Frangipani”, de Mia Couto. Sem pesquisar sobre, somente lendo o romance, tentei entender o porquê do nome, por que varanda, por que frangipani. Eu nem sabia o que é um frangipani! Aí, aprendi mais uma coisa sobre Moçambique, ela é a própria varanda do frangipani.
Mia Couto sempre me surpreende! Ele simplesmente eternizou a frase (poética, diga-se de passagem!) dita por Eduardo Lourenço, filósofo português, que, ao sair de Maputo, em 1995, disse: “Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico”.
Escritores conseguem transformar em poesia o que abstraíram de algo que, para qualquer outra pessoa, parece ser aleatório.
No 5.º capítulo de “A Varanda do Frangipani”, “A Confissão do Velho Português”, diz assim: Como o mar se dá bem neste lugar! Falei assim naquela tarde. Falava com alguém? Não, conversava com as ondas lá em baixo. Sou português, Domingos Mourão, nome de nascença. Aqui me chamam Xidimingo. Ganhei afecto desse rebaptismo: um nome assim evita canseira de me lembrar de mim. O senhor inspector pede-me agora lembranças de curto alcance. Se quer saber, conto-lhe. Tudo sempre se passou aqui, nesta varanda, por baixo desta árvore, a árvore do frangipani”.
Nesse fragmento, Mia Couto explora o sentimento de um homem, num período pós-colonial recente, em que a sua esposa o enfrenta afirmando que vai voltar para Portugal e que se ele não for, não a verá mais: Você fica e eu nunca mais o quero ver.
O homem já não se sente mais português, mas deve partir. A sua língua já se misturou, a sua memória se distanciou das suas raízes, agora partilha da terra que, na verdade, não é sua, mas é como se fosse. Deve partir. Mas há muitas razões para ficar. A árvore do frangipani, em que Xidimingo descansa à sombra, simboliza a transformação da vida que se dá juntamente com as estações, na grande varanda, que tanto pode ser da sua casa, quanto Moçambique. Quando vim para a África, deixei de sentir o Outono. Era como se o tempo não andasse, como se fosse sempre a mesma estação. Só o frangipani me devolvia esse sentimento do passar do tempo.
Mas ele deve voltar. E o voltar significa que não chegará ao seu destino igual a quando partiu. E quando lá chegar, estará imbuído da cultura que amou por tanto tempo e ficará perdido sem saber, de facto, a quem pertence.
Talvez seja este o grande aprendizado: nos misturarmos para nos tornarmos melhores, pois as diferenças nos acrescentam, embora muitas vezes nos angustiam, nos despedaçam todos os sentimentos aflorados ao tocar a cultura do outro. Sim, talvez seja este o grande aprendizado: nos misturarmos para nos tornarmos melhores. Porém, numa mistura pacífica, num acto pacífico de amor, em que não precisamos de proclamar a independência do outro porque precisamos dele para, juntos, lutar pelas nossas causas justas.
Kátia Nascimento – escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com
Fotos: Féling Capela