ATELIER DE LETRAS: O tempo anda por ondas

KÁTIA NASCIMENTO*

O TEMPO anda passando muito rápido para mim. Talvez porque esteja em terras desconhecidas e as pegadas devam ser mais leves para não ser intrusivas. Talvez eu nunca o tenha aproveitado tanto. Por isso, hoje o sinta de outra forma. Ele, o tempo, anda por ondas, comprovando que nada, nesta existência, tem linha recta, constância, permanência, tudo vai e vem, a cada dia um entendimento, um significado, a cada dia um apego e um desprendimento, a cada dia um amor e um desafecto porque o tempo anda por ondas.

Depois que descobri a literatura africana de língua portuguesa, vivo querendo ler mais este ou aquele livro (como se o tempo não existisse). E com descobrir quero dizer conhecer, de facto, uma quantidade tal de autores africanos que eu possa afirmar, conheço um pouco da sua literatura porque me debrucei nas páginas e páginas das lindíssimas obras literárias. E com lindíssimas quero dizer que é uma literatura que significa e ressignifica a cada leitura, que mexe com minhas estruturas quando a leio, que me deixa reflectindo por horas a fio e saio dali outra pessoa, outro ser, outra mulher. Do contrário, não seria literatura.

Desde que cheguei em Portugal, embrenhei-me nesta seara. Como minha tese de doutoramento é o estudo da obra de Paulina Chiziane, meus olhos são só para ela. Mas, antes de vir, tinha um preferido, que era o Mia Couto.

Ah! Mia Couto! Ele leva-me de arrasto a lugares inimagináveis porque “o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanhar boleia numa dessas ondulações” (Mia Couto, em Mar me quer). E eu vou. Até quero e preciso ficar só na querida Paulina. Mas, de repente, “não mais que de repente”, como dizia o poeta, deparo-me com Mia Couto na livraria, em Aveiro, porque o “tempo anda por ondas” e eu sigo o seu fluxo que me arrasta, como me arrasta consigo a sua literatura.

Encontrei “Vagas e Lumes, livro de poemas de Mia Couto. O poema tem lá suas peculiaridades porque também o poeta. Uns dizem que o poeta é um sonhador. Outros que é um fingidor. De minha parte, acredito, sim, que o poeta é um sonhador que finge que o que sonha é verdade. Ah! A tal da verdade! O que significa verdade, afinal?

E, quanto a mim, “o tempo passa por ondas”, e por enquanto, estou engasgada: “Voarei, um dia, sem saber se é de terra ou de céu a pegada do voo que sonhei” (Em Autobiografia).

*Kátia Nascimento – escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com

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