ALBERTO ZUZE
A ÁGUA recuou, mas a recuperação das famílias afectadas pelas cheias em Mabalane e Chókwè enfrenta agora novos desafios. Seis meses depois das inundações, a população reconstrói casas e regressa às machambas, numa altura em que a seca e a invasão de elefantes ameaçam a produção e a segurança alimentar.
As cheias levaram casas, culturas, estradas e, para muitas famílias, a sensação de segurança. Entre paredes destruídas, campos que voltam a ser cultivados e famílias que tentam recuperar o pouco que restou, começa uma nova batalha: voltar a viver.
Por entre a lama seca e os sinais de destruição, a vida reaparece lentamente. Homens e mulheres levantam paredes, limpam casas e preparam novamente as machambas. O cenário já não é o de emergência vivido durante as inundações, mas está longe de representar uma recuperação completa.
Para muitas famílias, reconstruir significa começar praticamente do zero: recuperar documentos, procurar utensílios, reconstruir casas e, sobretudo, encontrar meios para voltar a produzir alimentos e garantir o sustento.
Elisa Domingos conhece bem esse recomeço. Quando percebeu que a água começava a entrar na sua casa, não houve tempo para salvar os bens. A prioridade era escapar.
“Quando a água entrou, já não tínhamos como salvar as nossas coisas. Tivemos de sair para salvar a vida”, recorda.
Agora, a luta é reconstruir as paredes, recuperar os bens perdidos e encontrar condições para retomar a vida. As mulheres estão entre as principais protagonistas deste processo. Algumas retomaram pequenas actividades comerciais, enquanto outras regressaram às machambas.
Ainda Chaúque, de 38 anos, residente em Combomune-Estação, distrito de Mabalane, perdeu parte da casa durante as inundações. Depois de reconstruir parte da habitação, a sua principal preocupação é garantir comida para a família.
Das inundações à seca
Em Combomune-Rio, Mabalane, a recuperação enfrenta outro obstáculo. Depois do excesso de água, que destruiu casas e culturas, a falta de chuva ameaça agora as famílias que dependem da agricultura.
Simone Matcheque, de 68 anos, regressou à machamba acreditando que o pior tinha passado.
“Voltei para limpar, reconstruir e preparar novamente a minha machamba. Mas agora estamos a enfrentar outro problema: a seca. A terra está seca e aquilo que plantámos não cresce como esperávamos”, conta.
Além da seca, os elefantes invadem as machambas e destroem parte do pouco que as famílias conseguem produzir.
Sofia José de Carvalho, de 41 anos, enfrenta o mesmo problema. Depois de perder bens durante as cheias, regressou para reconstruir a vida, mas deparou-se com dificuldades para produzir.
“Plantamos, esperamos pela chuva, mas nem sempre ela chega”, afirma, acrescentando que os elefantes agravam as perdas ao destruírem as culturas.
Comunidade procura reerguer-se
A comunidade tem desempenhado um papel importante no regresso à normalidade. As famílias juntaram esforços para limpar os espaços afectados, reconstruir habitações e preparar novamente as terras para a produção agrícola.
O líder comunitário de Combomune-Rio, Adão Baloi, afirma que a falta de chuva e a invasão de elefantes estão a dificultar a recuperação.
Entre as principais preocupações da comunidade estão o reforço do apoio à agricultura, a disponibilização de sementes e outros meios de produção e a adopção de medidas para proteger as machambas dos animais.
Mabalane recupera das cheias
As inundações afectaram cerca de 36 mil pessoas em Mabalane, numa população estimada em 42 mil habitantes, provocando cortes de estradas, destruição de pontes e interrupções na circulação ferroviária.
O administrador do distrito, Sérgio Moiane, afirma que as comunidades receberam sementes e outros insumos, o que permitiu a retoma da actividade agrícola.
“A nossa população ergueu-se. Está a fazer machambas. Colocámos as sementes à disposição das comunidades. Estão a trabalhar. As coisas mudaram bastante”, afirmou.
Apesar da recuperação, Mabalane, um distrito semi-árido com precipitação média de cerca de 300 milímetros por ano, prepara-se para enfrentar a seca, que poderá comprometer a segurança alimentar e a disponibilidade de água para o gado.
Outro desafio é o conflito entre o Homem e os animais selvagens. Até ao primeiro semestre, as autoridades estimavam que entre 15 e 25 hectares de áreas agrícolas tinham sido devastados por elefantes.
Ponte destruída, desvio aberto
Em Chókwè, prosseguem os trabalhos de emergência no troço Manjangue-Barragem de Macarretane, na estrada R448, onde as cheias destruíram uma ponte e provocaram cortes na via.
Segundo a Administração Nacional de Estradas, foi aberto um desvio provisório para garantir a circulação enquanto decorrem os trabalhos de reposição das condições normais da estrada.
A R448 assegura a ligação entre Chókwè e os distritos de Guijá, Mabalane, Mapai, Chicualacuala, Massangena e Chigubo, além de permitir conexões com outras regiões do país e com o Zimbabwe.