EDITORIAL

Nas últimas semanas, relatos partilhados nas redes sociais trouxeram de volta um fenómeno cíclico, o pânico colectivo, desta vez gerado por rumores sobre atrofia e/ou desaparecimento de órgãos genitais masculinos, após cumprimentos ou contacto físico.

Cabo Delgado foi o ponto de partida do problema, que muito rapidamente se espalhou por algumas cidades e distritos das províncias de Nampula, Zambézia, Tete, Niassa e Sofala, tendo as plataformas digitais como veículo de propagação.

O medo causado pela ameaça de perder os órgãos genitais levou muitos homens a recorrer a meios assumidos como antídotos, a saber pulseiras elásticas, com um alfinete afixado, que supostamente travam o efeito da alegada magia.

Como consequência, o país assiste a uma onda de pânico que desafia a lógica racional e coloca em causa a ordem, segurança e tranquilidade públicas. Dados das autoridades policiais apontam para o registo de pelo menos 40 mortos, vítimas de linchamento, porque acusados de deter poderes mágicos capazes de causar o atrofiamento.

Pelo menos 100 pessoas deram entrada nas unidades sanitárias com ferimentos, algumas das quais ainda lutam pela vida nos hospitais de referência.

O balanço da resposta policial aponta para a detenção de mais 150 indivíduos por incitamento à violência, que já causou a morte de professores, profissionais de saúde, líderes comunitários e outros cidadãos inocentes.

Não existe, até ao momento, evidência médica documentada, que comprove o atrofiamento súbito de órgãos genitais por toque, feitiço ou contacto físico casual. No campo da antropologia médica, o fenómeno encontra o paralelo na síndrome de Koro, uma ansiedade aguda na qual a pessoa acredita que os seus órgãos estão a retrair-se ou desaparecer.

A onda de desinformação causada pelos rumores traz consigo consequências graves, desde a violência injustificada, com linchamento de inocentes; desvio de recursos da saúde para assistir pacientes com pânico e trauma causado pelas agressões; para além de sequelas psicológicas duradouras para os acusados queixosos.

Notamos que a resposta à onda de desinformação não tem sido capaz de solucionar o problema com o qual a comunidade se debate e, acabar com o medo e pânico que se instalaram em localidades, distritos e algumas cidades do Centro e Norte do país.

Do ponto de vista de segurança pública, defendemos uma justiça de proximidade, com uma intervenção policial culturalmente sensível, sem desvalorizar a crença como “mera ignorância”, pois a negação aumenta o medo e desconfiança nas instituições.

Do lado do Governo e Ministério da Saúde, é exigida uma comunicação rápida e clara. Quando um rumor surge num distrito, a resposta das autoridades deve chegar às rádios comunitárias no mesmo dia, nas línguas locais, com os médicos a explicar os sintomas e desmistificar o medo. O silêncio alimenta o boato.

Outrossim, é preciso fortalecer o envolvimento dos líderes comunitários, cruciais para interromper a “eficácia discursiva” da desinformação. Eles são os únicos capazes de desmistificar o contágio, utilizando uma linguagem que ressoe com as crenças locais, pacificando os ânimos e restituindo a sensação de segurança às comunidades afectadas pelo fenómeno.

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