LEOVEGILDO DA CRUZ
AO cair da noite, Nhoquene começa a ficar em silêncio. As portas fecham-se cedo, as pessoas reduzem as deslocações e, junto de algumas casas, acendem-se fogueiras para afastar os elefantes que se aproximam. Na escuridão, a mata densa que cobre grande parte da comunidade transforma-se numa extensão de passagem dos animais que invadem residências, machambas e outros locais, condicionando a vida dos moradores que já não circulam com a mesma liberdade.
Sónia Evelina conhece este cenário desde a morte do marido, o régulo da comunidade, atacado por um elefante a 29 de Abril de 2023. Desde então, permanece na zona com os filhos e relata que os animais continuam a aparecer junto da residência, sobretudo à noite e nas primeiras horas do dia. Para proteger-se, a família recorre ao fogo e evita permanecer nas áreas por onde os animais costumam passar.
“Quase todos os dias entram na minha casa e na machamba. À noite, ouvimos os movimentos deles nas proximidades. Acendemos a fogueira para tentar afastá-los. Mesmo assim, temos medo de sair das nossas casas”, relatou.
A antiga machamba de Sónia deixou de produzir depois dos elefantes destruírem a vedação feita de arame farpado e invadirem repetidamente o espaço.
A moradora contou que já não consegue manter sequer uma pequena horta, porque os animais aproximam-se quando encontram mandioca, couve e outras culturas. O receio estende-se às áreas onde outras famílias cultivavam, que permanecem sem produção por falta de segurança.
Agostinho Chaguala, outro residente de Nhoquene, referiu que a comunidade continua a procurar formas de sobreviver, mas a agricultura perdeu parte da sua função como fonte de alimentação e rendimento.
Os moradores evitam entrar nas antigas zonas de cultivo e enviar jovens para o pasto, devido à possibilidade de encontro com elefantes, búfalos, hienas e outros animais bravios.
“Os elefantes estão a dizimar os campos agrícolas e as pessoas estão a sair da comunidade por causa dos ataques. Temos búfalos, elefantes e outros animais selvagens, e já não sabemos onde podemos produzir com segurança”, relatou Chaguala.
A mata densa é apontada pelos residentes como um dos elementos que favorecem a permanência dos animais nas proximidades das casas e dos campos. Alice Canhemba, nativa de Nhoquene, afirmou que a vegetação ocupa extensas áreas e, enquanto as zonas permanecerem sem outra utilização, os elefantes continuarão a encontrar abrigo próximo das áreas habitadas. Os moradores, contudo, não conseguem indicar com certeza a proveniência dos animais, mas alguns suspeitam que venham de zonas próximas da África do Sul.
Moradores abandonam casas
A saída das famílias de Nhoquene, no distrito de Moamba, ocorre de forma gradual. Algumas abandonaram as casas, outras deixaram de cultivar, e há quem permaneça por não encontrar outro lugar para viver. Para estas famílias, a presença frequente de elefantes alterou a rotina e passou a condicionar deslocações, acesso à água, criação de animais e trabalho nas machambas.
Sónia Evelina contou que algumas pessoas já deixaram a zona devido ao risco provocado pelos animais e às dificuldades para garantir alimentação e segurança. Para ela, abandonar Nhoquene é uma decisão difícil, sobretudo porque vive com os filhos e a sua residência continua a ser procurada por membros da comunidade que recorrem à família do antigo régulo para resolver conflitos e tratar de outros assuntos.
A permanência, entretanto, passou a exigir cuidados que antes não faziam parte do quotidiano. A procura de água é feita de acordo com os movimentos dos elefantes, e o acesso às áreas agrícolas depende das condições de segurança. As famílias que criam bois, ovelhas, cabritos e porcos também enfrentam dificuldades para acompanhar os animais quando estes se afastam das residências.
“Não podemos mandar os jovens ao pasto, porque temos medo que sejam atacados por estes quadrúpedes. Quando os nossos animais se perdem, ficam pelo mato para sempre, porque não conseguimos entrar para procurá-los”, avançou.
A produção agrícola também foi afectada. Clara Macamo, moradora de Nhoquene há mais de 30 anos, contou que uma empresa manifestou interesse em explorar cerca de 100 hectares para produzir batata, cebola e outros alimentos. A proposta, segundo explicou, poderia permitir o aproveitamento de uma área actualmente coberta por mata e criar oportunidades de produção e emprego, mas aguarda autorização para avançar.
“Temos muita mata e não conseguimos fazer machambas. Surgiu uma empresa interessada em explorar 100 hectares, mas até agora as autoridades não facilitam a utilização do espaço. Se fosse aproveitado, poderíamos voltar a produzir e consequentemente expulsar os animais da região”, contou.
Damião Ubisse explicou que a população foi retirada de uma área pertencente à barragem Major e reassentada em 2016, com a expectativa de que as casas fossem temporárias. Dez anos depois, as famílias continuam sem um espaço definitivo para desenvolver actividades agrícolas.
A falta de água agrava as dificuldades. Fernando Mate referiu que o abastecimento chega apenas uma ou duas vezes por mês e não cobre as necessidades das famílias. Quando o fornecimento termina, os residentes recorrem ao rio Incomáti, atravessando zonas frequentadas por animais bravios.
“Quando a água acaba, vamos ao rio Incomáti. Durante o percurso, várias vezes encontramos elefantes e outros animais selvagens. Mesmo assim, temos de ir, porque precisamos de água”, explanou.
Explicou que, quando os elefantes se aproximam das zonas habitadas, os moradores recorrem às estruturas de conservação. As equipas deslocam-se ao local e utilizam objectos pirotécnicos para afastar os animais. A medida permite restabelecer temporariamente a circulação, mas a manada regressa depois de algum tempo.
“Eles vêm afugentar os elefantes com fogo de artifício, mas depois de algum tempo os animais voltam novamente. Quando ouvimos os movimentos perto das casas, ficamos com medo de sair e esperamos que passem”, relatou Evelina.
Contou que um dos animais foi abatido, recentemente, depois de sucessivas incursões na comunidade.
Fernando Mate referiu que a mata permanece extensa e à noite os residentes evitam atravessá-la. Durante o dia, alguns caminhos continuam a ser usados, mas a presença de animais obriga, por vezes, à mudança de trajecto.
O acesso à vila de Moamba também é condicionado pela falta de transporte e pelo estado das vias. Joaquim Cumbe, de 18 anos, contou que alguns moto-taxistas deixam de chegar à comunidade devido às condições da estrada. A ausência de energia eléctrica e de água concorre igualmente para o isolamento.
Na Educação, Clara Macamo afirmou que a Escola Primária de Nhoquene tem actualmente menos de 15 alunos nos dois períodos. O número, segundo explicou, reduziu à medida que algumas famílias foram deixando a comunidade.
Ordenar a terra para afastar o risco
A REORGANIZAÇÃO das zonas habitacionais e produtivas começa a ser apontada como uma das soluções para reduzir o contacto entre as comunidades e os animais bravios na Moamba, através da disponibilização de terrenos infra-estruturados e da separação entre os espaços ocupados pelos humanos e as áreas de circulação da fauna.
A informação foi partilhada pela directora do Serviço Distrital das Actividades Económicas (SDAE) de Moamba, Maria Helena, quem referiu que a medida visa reduzir a exposição das famílias residentes em locais onde os encontros com animais se tornaram frequentes.
A dirigente avançou que estão a ser desenvolvidos esforços para organizar a ocupação das diferentes zonas do distrito, sobretudo nos pontos onde a circulação da fauna ocorre com maior frequência.
Explicou igualmente que o processo passa pela identificação de áreas que possam receber assentamentos humanos e actividades produtivas em melhores condições. Segundo afirmou, a disponibilização de terra infra-estruturada permitirá concentrar a população em espaços definidos e reduzir a ocupação dispersa junto das zonas frequentadas pelos animais.
Maria Helena explanou que a separação espacial entre as pessoas e a fauna pretende diminuir os pontos de contacto que estão na origem de parte dos conflitos. A medida, acrescentou, deverá permitir que as comunidades tenham áreas próprias para habitação e produção, enquanto os espaços de circulação dos animais permaneçam menos sujeitos à ocupação humana.
A directora contou que a realidade do distrito exige uma intervenção diferenciada, uma vez que as comunidades não estão expostas da mesma forma. “Há zonas onde a presença de animais ocorre com maior frequência e outras em que o risco é menor, razão pela qual o planeamento deverá considerar as características e potencialidades de cada território”, explicou.
A responsável referiu que o ordenamento não representa uma resposta isolada. A reorganização dos assentamentos deverá ser acompanhada por uma monitorização, sensibilização, afugentamento e capacitação das populações, de modo a reduzir os riscos enquanto se criam novas condições de ocupação.
Segundo detalhou, a disponibilização de terra infra-estruturada poderá também favorecer a instalação de actividades económicas e produtivas, criando condições para que as famílias tenham alternativas de sobrevivência fora das zonas de maior circulação da fauna.
Avançou ainda que esta abordagem está prevista nos princípios da Estratégia de Gestão do Conflito Homem-Fauna Bravia, que estabelece a separação espacial entre assentamentos humanos e áreas de utilização da fauna como uma das componentes da prevenção.
O processo, explicou, exige coordenação e planeamento antes da transferência ou instalação das famílias. Enquanto as áreas são identificadas e organizadas, as comunidades continuam a ser acompanhadas nas zonas consideradas críticas.
Crescente número de elefantes agrava conflito
O AUMENTO da população de elefantes em Moçambique, actualmente estimada em cerca de 22.700 animais, está a agravar o conflito entre a fauna bravia e as comunidades que vivem nas proximidades das áreas de conservação, sobretudo na região Sul, que concentra 53 por cento destes paquidermes.
O director-geral da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC), Pejol Calenga, apontou o Parque Transfronteiriço do Limpopo como uma das áreas com elevada concentração de elefantes, defendendo a reorganização dos espaços e a retirada das populações das zonas-tampão.
Falando num evento sobre o senso de elefantes havido no ano passado, Calenga explicou que o crescimento da população de elefantes, associado à redução da caça furtiva, aumenta a possibilidade de contacto com as comunidades, sobretudo quando os animais deixam os seus habitats em busca de água e alimento.
A situação pode afectar o cultivo das machambas, a criação de animais e a circulação de pessoas, principalmente nas zonas que coincidem com os corredores de movimentação da fauna.
Adiantou, na ocasião, que o desafio passa por criar condições para reduzir o conflito Homem-fauna bravia, conciliando a conservação dos elefantes com a segurança das comunidades.
Dados do censo mostram que as carcaças reduziram de 48,35 por cento, em 2018, para 4,6 por cento, em 2025, sinal da redução da caça furtiva.
Vedação para travar entrada de animais
A RECUPERAÇÃO da vedação na fronteira com o Parque Nacional de Kruger e a mobilização das comunidades fazem parte das medidas em preparação no distrito de Moamba para reduzir a entrada de elefantes no território, uma vez que alguns pontos da antiga barreira deixaram de cumprir a função de impedir a passagem dos animais.
O administrador de Moamba, Carlos Mussanhane, explicou que a proximidade com o Parque Nacional de Kruger constitui um dos factores que favorecem a entrada dos paquidermes no distrito. Segundo referiu, existem zonas fronteiriças onde a vedação deixou de existir, permitindo a passagem dos animais bravios para o território moçambicano.
Mussanhane contou que o distrito está a trabalhar em coordenação com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e com outras entidades ligadas à gestão da fauna bravia, procurando encontrar uma solução que não se limite ao afastamento dos animais, depois de estes entrarem nas zonas habitadas.
O administrador avançou que já existe uma parceria para a construção de uma nova vedação em determinados pontos, mas reconheceu que a barreira, por si só, não será suficiente para resolver o problema. A intervenção deverá ser acompanhada por outras medidas destinadas a reduzir a aproximação dos animais às comunidades.
“Já temos um parceiro com quem estamos a trabalhar na vedação, mas a vedação não é suficiente. Queremos fazer algo ainda maior para responder a esta situação e proteger as nossas comunidades”, disse.
Entre as acções previstas está o reforço da sensibilização dos residentes que vivem nas zonas de circulação da fauna. Mussanhane explicou que as comunidades precisam de conhecer os procedimentos a adoptar perante a presença dos animais e colaborar com as estruturas responsáveis pela gestão do conflito.
O administrador referiu que Moamba enfrenta uma realidade particular devido à sua localização e às áreas de circulação de fauna existentes no distrito. Por isso, explicou, a resposta precisa de envolver diferentes intervenientes e combinar medidas de prevenção com mecanismos de intervenção quando os animais se aproximam das populações.
A vedação surge, assim, como parte de uma intervenção mais ampla para controlar os pontos de entrada dos elefantes. A recuperação dos trechos destruídos ou inexistentes deverá dificultar a passagem dos animais, enquanto a sensibilização e a monitorização deverão permitir uma resposta mais rápida quando houver movimentação em direcção às comunidades.
Mussanhane assegurou que as autoridades acompanham a situação e estão a procurar mecanismos para responder às preocupações apresentadas pelos residentes. A intervenção, segundo explicou, deverá considerar não apenas a protecção das populações, mas também as regras estabelecidas para a gestão da fauna bravia e das áreas de conservação.
Fotos: Sérgio Manjate