Indústria cultural à mercê da manipulação

AMÁVEL PINTO

NUM momento em que Moçambique procura afirmar a sua identidade cultural e reforçar a sua soberania artística, o cenário actual da promoção cultural no país revela-se cada vez mais preocupante. A banalização da cultura moçambicana, alimentada por uma dependência acrítica de iniciativas ocidentais, exige uma reflexão séria e urgente, e uma responsabilização clara do Governo.

A abertura, quase automática, para projectos promovidos por indivíduos ocidentais, frequentemente mascarados de iniciativas de capacitação cultural, levanta sérias dúvidas sobre os critérios adoptados pelas autoridades.

Quando se permite a utilização do símbolo do Estado, a bandeira, o brasão ou qualquer outro emblema nacional para validar eventos cujo real propósito é a promoção pessoal dos seus organizadores estrangeiros entra-se num perigoso território de conivência política e simbólica.

Como explicar que um evento, dito de formação e capacitação cultural, propõe condensar quatro anos de estudo académico em apenas uma semana? Tal proposta não é apenas intelectualmente desonesta, mas profundamente ofensiva para todos os profissionais e estudantes que dedicam anos ao estudo sério das artes e da gestão cultural. É, na prática, uma caricatura do saber, apresentada como solução milagrosa a um povo sistematicamente privado de oportunidades estruturadas.

A música que se ouve nesses eventos, frequentemente marcada por estéticas e linguagens exclusivamente ocidentais, não é neutra. É a trilha sonora de uma pedagogia de imposição, como quem diz: “É assim que se faz arte, aprendam connosco”.

O que se propõe, no fundo, não é uma troca, mas uma colonização simbólica, uma subalternização do fazer artístico moçambicano perante os olhos do próprio Estado.

A responsabilidade do Governo é grave. Em vez de proteger os seus fazedores culturais, abrindo espaço para o crescimento interno e para o fortalecimento de instituições locais, parece, muitas vezes, seduzido por um brilho estrangeiro artificial que, em muitos casos, não passa de um disfarce para agendas individuais e financiamento externo facilmente obtido sob o pretexto de “salvar a cultura griot africana”. Cultura essa que não precisa de ser salva, mas respeitada.

José Craveirinha, nosso poeta maior, já denunciava esta postura nos seus versos, onde falava da “liberdade adiada” e da “consciência adormecida”. Hoje, a sua voz ecoa com força renovada. A liberdade cultural de Moçambique continua em risco, não apenas pela opressão directa, mas pela submissão disfarçada de parceria.

O problema de fundo, no entanto, não reside apenas na acção dos estrangeiros, mas na nossa própria fragilidade. É a combinação entre uma estrutura económica debilitada e uma ganância individual que permite que se aceite, de forma acrítica, qualquer proposta embalada com um selo europeu.

Pouco importa se há, dentro do país, quadros qualificados e capazes de formar, dirigir e inspirar. Não há vontade política para investir neles. E, como consequência, o país expõe-se a iniciativas que, longe de fortalecer, corroem o tecido cultural nacional.

O Governo tem de ser mais selectivo. Tem de ter coragem para dizer “não” quando o que está em causa é o respeito pela nossa identidade. O tempo da bajulação cega ao Ocidente tem de chegar ao fim. E, mais cedo ou mais tarde, a corrupção, essa que se disfarça de “colaboração internacional”, terá de ser desmascarada.

Enquanto isso não acontecer, a cultura moçambicana continuará a ser tratada como um troféu exótico em mãos alheias. E isso, simplesmente, não é aceitável

Arte: De Landraad te Colombo, Rijksmuseum

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