Uma Onça na Cidade, de Deusa D’África

“O pânico infestava cidades e vilas, a morte era carregada no dorso de uma onça que cruzava o vilarejo e cidadelas, usurpando tudo, transformava a vila em sua gruta” “[…] rasteou inverdades de que o coração soube de cor ao vê-las na tontura da tinta com que a pintura fora feita.”

Silvio Ruiz Paradiso

Na tessitura das suas mais profundas concepções, a literatura ergue-se como a sinfonia harmoniosa da língua, meticulosamente maestreada com finalidade estética. Tal como a arte que transborda em pinceladas e tintas, a literatura é a paleta do autor, e as palavras, nos seus matizes morfológicos, lexicais, fonético-fonológicos e pragmáticos, são os pigmentos, cores, traços e nuances. Em meio a essa sinfonia de expressão, e se tal analogia for levada em conta, Deusa d’África seria uma pintora surrealista, ou afrosurrealista como cunhado por Amiri Baraka em 1974. A escritora moçambicana transmuta o cenário do seu romance “Uma Onça na Cidade” (2023) em uma tela surreal vibrante, desvendando o âmago da memória colectiva, entremeada por ideias e imagens inquietantes.

A narrativa, disposta em 2 intrincados capítulos, se desenrola como uma obra espatulada com ousadia. O pano de fundo é um panorama dilacerante de desolação e violência, onde a luta por sobrevivência em meio ao caos é retratada com fúria e realismo. É neste cenário que o leitor é apresentado à jornada de Jhossiane e Mariane, figuras centrais que encaram desafios épicos em um mundo marcado pela opressão e o desespero. O texto, um emaranhado de metáforas e simbolismos, desvenda as tramas das relações humanas e as consequências amargas de um poder desmedido da mídia, dos militares, das milícias, da (in) justiça.

O cenário – uma África metonímica – é a tela, onde o sangue flui como tinta, evidenciando os matizes da vida. Desvelam-se personagens como Joaneta, um símbolo de brutalidade e dor; Ricarduane, artista cuja alma atormentada ecoa neste ambiente; Zeyane, que mostra a polícia uma força mais temida do que os próprios criminosos; o General Khensane, em busca de paz e do bem-estar ególatra; Violetane e Pauloane, cuja trajectória expõe as tradições matrimoniais sob um crivo cultural implacável; e outros, como Pedrito Savangane e Dona Jaraca, retratando o pior da humanidade em uma sociedade devastada física, moral e espiritualmente.

Este é um romance que transcende os limites da realidade, onde a literatura encontra a pintura e ambos tecem uma tapeçaria de desespero e esperança. A sucessão e dinâmica de poder, as nuances políticas e o anseio por um horizonte promissor são entrelaçados em uma prosa evocativa e poética. Cada página é uma jornada pela dualidade humana, mergulhando o leitor nas profundezas da alma, onde a busca pela paz entrelaça-se com a teia da violência.

Este não é um livro para os fracos de espírito; é um mergulho nas entranhas de uma nação em tumulto. As imagens são vívidas, por vezes desconcertantes, carregadas de significado e provocação. Deusa d’África desnuda as feridas e cicatrizes de uma nação, transformando a dor em arte. As páginas deste livro são um espelho da vida, reflectindo o horror, a beleza e a esperança, envolvendo o leitor com uma narrativa que não apenas conta uma história, mas faz ecoar a ressonância da condição humana.

“Uma Onça na Cidade” (2023) é uma obra que desafia a mente e a sensibilidade, como um quadro que não apenas decora uma parede, mas transcende o espaço e o tempo, convidando-nos a mergulhar profundamente na sua complexidade. O polegar que vira cada página está destinado a se afundar ou tinta ou em sangue, mergulhando no mundo de Deusa d’África, uma artista das palavras que nos leva em uma jornada através da essência da vida, da morte e de tudo o que há entre eles. Prepare-se para uma experiência literária que vai muito além das palavras.

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