DIA MUNDIAL DO TEATRO: Um palco para luzes da paz

LUCAS MUAGA

NA véspera do Dia Mundial do Teatro, 27 de Março, os fazedores da arte reflectem sobre o seu papel na construção de um planeta mais justo e pacífico. Assim, o lema deste ano, formulado como uma pergunta na mensagem internacional, assinada pelo grego Theodoros Terzopoulos, convida à reflexão: “Poderá o teatro ouvir o pedido de SOS que os nossos tempos estão a enviar?”.

Esta interrogação desafia os artistas e os convida a procurar respostas que façam a diferença em tempos conturbados. Moçambique, por exemplo, testemunha manifestações pós-eleitorais e o terrorismo em Cabo Delgado. Busca ainda superar desastres naturais, que, para além de deixar sequelas difíceis de apagar, são recorrentes.

Neste sentido, a reflexão proposta para este 27 de Março não deixa margem para quaisquer dúvidas. O teatro é chamado a ouvir os gritos da humanidade, a acolher os mais fracos e a enxugar as lágrimas dos que sofrem. É intimado a servir de remédio para os doentes e combater a ignorância. Ou seja, no contexto actual, posiciona-se como um agente de mudanças, incitando ao questionamento e à transformação social.

E é com esta convicção que os artistas continuam a subir ao palco. São muitos os que pensam como o professor e actor Dadivo José, para quem a representação é essencialmente uma repetição da realidade. 

“Não podemos nos desligar do momento que estamos a viver, pois o teatro reflecte a realidade. É uma forma de aprendermos com os nossos erros e conquistas. Certamente, tudo o que aconteceu no país se tornou uma fonte de inspiração para os artistas, não pelo evento em si, mas pela oportunidade que oferece de gerar dramas e reflexões”, explicou, numa conversa recente com o “Notícias”.

Para ele, as manifestações sociais e os tempos de crise não podem ser encarados como sinónimos de dificuldade, pois apresentam-se como terrenos férteis para o surgimento de novas obras. 

“Embora tenha sido impossível apresentar os trabalhos nos palcos durante um longo período, muitos espaços pequenos, como o Makhall’artes, no bairro da Polana-Caniço, continuaram a promover o trabalho de palco. Isso é o que importa: a vontade de criar, independentemente das circunstâncias”, exemplificou para mostrar que a crise não deve ser vista como um obstáculo. É, antes de tudo, uma oportunidade para ser o reflexo da sociedade, uma ferramenta de resistência e, sobretudo, um espaço de diálogo para a paz. 

Segundo Dadivo José, o teatro moçambicano, apesar dos desafios enfrentados, continua a crescer. O importante, disse, é insistir nas escolas e nas companhias. “Esta arte precisa de acontecer sempre, em qualquer situação. Mesmo quando as vias estão bloqueadas, a vontade de fazer arte e de reflectir sobre o mundo deve prevalecer”, comentou.

Por sua vez, Alvim Cossa, coordenador da Associação Moçambicana de Teatro (AMOTE) e do Centro de Teatro do Oprimido (CTO), refere que esta arte cénica é, pela sua essência, uma actividade de diálogo e tem-se empenhado fortemente na promoção da paz. 

“Mesmo quando se apresentam monólogos, o objectivo é sempre dialogar com o outro, com o público, criando assim uma troca constante de ideias e emoções. Com esta abordagem, a representação configura-se como uma poderosa ferramenta de comunicação e de entendimento mútuo”, disse.

Garantiu que os seus fazedores continuam a lutar por melhorias, alegrando-se com o facto de poder apresentar em espaços abertos como a rua, com vista a exercer a função de mobilização social. “A luta pela liberdade de expressão e pelo acesso à cultura continua a ser uma prioridade, reafirmando o papel do teatro na construção de um mundo mais justo e pacífico”, comentou.

Fotos: Féling Capela

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