ANABELA MASSINGUE
PASSAVA pouco mais das 21.00 horas de terça-feira, 12 de Maio, na Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na baixa da cidade de Maputo. Os ponteiros do relógio andavam a um ritmo psicologicamente mais acelerado que o habitual, anunciando o fim de uma noite e a aproximação de um novo dia, portanto, um período inquestionavelmente de repouso. O que não ia na mente dos ocupantes da automotora, na carreira especial recentemente introduzida para aquele período nocturno, é que permaneceriam dentro das carruagens até à transição para o dia 13 de Maio.
Só não rezaram o Rosário, com tudo o que o 13 de Maio significa, pelo menos para os católicos, provavelmente porque a revolta e a ansiedade de querer chegar ao aconchego entrou numa combinação com os actos diabólicos que iam encontrar mais adiante.
Depois de um clima estranho, marcado pela saída tardia da locomotiva, que contrastou com o modo de ser e estar no que diz respeito ao cumprimento de horários de partida, diga-se, em condições normais, vinha o indesejável.
Tempos depois soava o alarme dos anúncios dando conta do que ninguém desejava ouvir: pedido de desculpas e apelo à compreensão, pois a viagem estava condicionada, com um bloqueio pouco depois da Estação do Infulene. O motivo era avaria do comboio de passageiros que partira da Estação Central às 18.15 horas com destino à região fronteiriça de Ressano Garcia. O anunciante falava igualmente, na mensagem dirigida aos passageiros da automotora, de uma desordem instalada, gerada pelos viajantes enfurecidos e ávidos de regressar à casa.
Muito tempo depois, sem nenhuma actualização da informação, o apito do comboio soou, para a alegria dos rostos pouco simpáticos de todos os ocupantes da automotora. Finamente! Pensava-se.
Como diz um adágio popular, a alegria do pobre não dura. Uma estranha paragem, mais longa que a habitual, viria a acontecer, desta feita na Estação do Infulene, prenúncio de algo estranho, mas… sem informação o resto só podia ser especulação.
Iniciou-se a marcha de aproximação para a Estação da Machava, o epicentro do teatro.
As carruagens, como habitualmente estavam preenchidas e com os passageiros moderados a assistir a cena pelas janelas, enquanto os actores principais, do lado de fora, obstruíam a linha-férrea, entre cânticos e danças, resistindo a qualquer dissuasão da força policial ali presente. Já não se tratava de um assunto negociável. Ou o comboio partia para Ressano Garcia ou toda e qualquer locomotiva que se fizesse ao local também permaneceria por ali, seja de carga, seja de passageiros. Foi uma pressão que se arrastou para além das 23.00 horas.
Perante a fúria dos passageiros a mostrar perigosamente pretensão de poder vandalizar a composição, o maquinista da automotora fez um recuo do local onde os ânimos estavam exacerbados.
As coisas desenrolaram-se, excepto a tão desejada partida. Porque já era novo dia, 13 de Maio, aos que se encontravam na automotora com destino à Matola-Gare só restava um pedido erróneo da ceia ou pequeno-almoço… pois a hora do jantar já tinha passado.