ATELLIER: Como pensas, Moçambique?

KATIA NASCIMENTO

ESTOU aqui conversando com os meus botões: como será que pensa este país, tão distante de mim? Como pensas, Moçambique? O que pensas, Moçambique?

Tenho me debruçado sobre os teus escritores e escritoras. Tenho tentado, por meio deles, desenvolver visão êmica que me dê alguma vantagem, mesmo tão distante, para compreender-te melhor até nos encontrarmos, enfim. Só se conhece, de facto, alguém ou algum lugar quando estamos pertinho, mais envolvidos pessoalmente, não é mesmo?

Claro que vai depender do objectivo. Mas longe, é difícil avaliar só lendo nos livros. Porque também os livros podem nos enganar.

Temos apenas ilusão de que é desta ou daquela maneira, quando temos apenas conhecimento enciclopédico sobre determinado lugar, quando não estamos ali, no modo pessoa. Aí, costumamos fazer uma regra de generalização, ao conhecermos algo específico sobre determinada coisa. É estereotipar, no mal sentido, um povo, afirmando que todos são assim, quando conhecemos apenas dois ou três.

Sim, é preciso estar mais perto, ouvir, sentir. Principalmente, sentir.

Aí nos embrenhamos na literatura porque a literatura envolve sentimento. Lemos, sentimos o que lemos e introjectamos. Se não sentimos o que lemos, não introjectamos. Esse processo nos dá cabedal para nos expressarmos.

Ah! As expressões! As expressões são a coisa mais linda que existe neste mundo. É quando conseguimos compreender o outro, e a nós mesmos.

E as tuas expressões, Moçambique?

Sei que és um lutador, aguerrido, e que criaste filhos bravios e doces. Sei, também, que criaste filhos para viver em comunhão. A palavra ubuntu bem diz isso, salvo engano, e só meu. E mesmo conhecendo o significado, percebo que ainda não consigo entendê-la em toda a sua integridade porque é preciso vivê-la, vivenciá-la. Parece-me que estou tão longe disso, embora imigrante, aqui.

Tento me aproximar.

Por enquanto, vou adquirindo conhecimentos a teu respeito, para não passar feio quando aí chegar. Os clássicos já me seduziram, disso não tenhas dúvidas, José Craveirinha, Ungulani Ba Ka Khosa, Paulina Chiziane, Mia Couto. Agora, estou descobrindo os novos, pois eles devem ser reflexo daqueles.

Acabo de ler Jessemusse Cacinda. Ele fala de Nampula, no seu livro Kwashala Blues. Nampula, sua cidade de origem, é vivaz e determinante para a narrativa. Ele tem um modo simples e profundo de descrever os fatos, interpretar os acontecimentos, embalar o leitor, ao mesmo tempo, sacudi-lo, como faz a literatura. Do contrário, o que seria a literatura?

Estou te contando isso, Moçambique, porque Cacinda é mais um filho que se destaca neste mundãovelhodeguerra. Mas, provavelmente, tu já sabes disso.

Gostaria que me respondesses porque me sinto tão distante! Mas como explicar a saudade que tenho de ti ao ler os teus autores e autoras, se nunca aí estive?

Como pensas, Moçambique? O que pensas, Moçambique? Quero saber tudo quando chegar aí.

Kátia Nascimento – escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com

Foto: Féling Capela

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