Desde quando conduzir seu carro virou crime?

SANDRO MOHAMED

As dinâmicas da actualidade obrigam qualquer um a se reinventar, de modo a se adaptar ao ritmo com que a sociedade molda as diferentes vertentes da vida quotidiana, pelo que várias opções são colocadas na mesa, devendo cada um decidir que caminho a seguir para realizar seus projectos.

Numa altura em que a maioria se esforça para arranjar um trabalho que possa render o sustento necessário para si e sua família (embora outros se preocupem em apenas ter um emprego seguro que possa dar algum salário), várias equações são colocadas à mesa e as respostas, nem sempre “batem certo”, no fim das contas.

Porque o corre-corre da vida urbana precisa de respostas acertadas. A questão da mobilidade tem sido fundamental para as pessoas poderem cumprir com os planos, muitas vezes, divididas entre ir trabalhar, ir à escola e/ou fazer um biscato para poder angariar um extra que ajuda a pagar as contas da escola dos filhos, peruca da mulher e uma “cervejinha” no fim da jornada.

Numa sociedade em que o transporte público é um bico-de-obra, muitas vezes, as pessoas optam por conseguir um meio próprio de locomoção e, na sua maioria contrai um empréstimo bancário para adquirir um Vitz, um Ractis, um Mazda Demio ou qualquer um desses “carritos” de segunda-mão, com baixa cilindrada para poder cumprir a agenda diária.

Esta corrida é, de um lado, responsável pelo tráfego intenso de viaturas a circular na cidade e, aliado à exiguidade de vias transitáveis, esta avalanche provoca congestionamentos intermináveis e os agentes de regulação de trânsito se tornam poucos para fazer cumprir a regra.

Qualquer um que se faz à estrada, sabe, de antemão, que vai encontrar na via pública agentes da Polícia de Trânsito (PT), devidamente identificados com a farda correspondente e uma placa de identificação com o respectivo nome.

Estes agentes têm a tarefa de mandar parar carros e fazer o que chamam de fiscalização de rotina, bem como outras acções que estiverem planificadas para determinada operação.

O que acontece é que agentes da Polícia de Protecção (PP), também se colocam na posição destes e passam a fiscalizar viaturas, pedindo carta de condução e livrete, o que levou a vários protestos por parte dos automobilistas.

Os dirigentes do sector vieram já à público esclarecer que a tarefa de mandar parar carros é exclusiva da Polícia de Trânsito, mas mesmo assim, ainda se pode encontrar num em noutro ponto alguns agentes da PP a agirem por contra própria.

Quando pensamos que já ultrapassamos esta fase, eis que agora surgem indivíduos à paisana a mandar parar carros, pedem documentos e fazem muitas outras questões, o que complica e embaraça os automobilistas interpelados.

Quando se questiona, afinal quem são estes indivíduos, a resposta é que são agentes do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC). Trata-se de uma sub-unidade do Ministério do Interior que evoluiu da famosa Polícia de Investigação Criminal (PIC), que tinha como responsabilidade investigar crimes cometidos pelos cidadãos.

Depois de vários debates, esta sub-unidade viu a sua tutela transferida do Ministério do Interior para a Procuradoria-Geral da República, alegadamente para criar maior eficiência na sua actuação e acelerar o esclarecimento de crimes.

Mas esta polícia esteve sempre no centro de críticas por alguns dos seus agentes estarem, quase sempre, envolvidos em actos criminais, incluindo assaltos, sequestros e assassinatos, o que deixa preocupada toda a sociedade moçambicana porque, no lugar de esclarecerem os crimes, eles próprios os praticam.

Sendo esta uma unidade exclusivamente responsável de investigar crimes, ao colocar seus agentes na rua, tendo como únicos visados e interpelados os automobilistas, a questão que se coloca é: será que conduzir sua viatura virou crime na República de Moçambique?

Se não, porque espalhar agentes de investigação criminal pelas ruas, tendo como alvos principais os automobilistas e a fazer a mesma coisa que os agentes da PT realizam?

Acho que as autoridades devem este esclarecimento ao povo moçambicano, porque ficamos sem saber a quem devemos obedecer em cada uma das situações. Isto abre espaço para que qualquer um, incluindo criminosos, mandem parar viaturas e exigir documentos, para depois consumar um assalto ou crime.

É urgente que a PGR, que agora aloja o SERNIC, venha a público esclarecer que tipo de crime está a investigar, ao ponto de espalhar seus agentes pelas ruas, tendo como principais alvos os automobilistas. Aguardamos respostas, com muita urgência.

Foto: Reprodução

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