O ANÚNCIO feito esta semana sobre a disponibilidade de “stock” de combustíveis líquidos para satisfazer as necessidades do país, por um mês, alivia não apenas o sector empresarial, mas, sobretudo, as famílias, as mais sacrificadas sempre que se regista uma perturbação no mercado petrolífero, que regra geral provoca a escalada de preços de produtos e serviços básicos.
Ainda que seja uma disponibilidade por tempo limitado, a notícia ajudou a aliviar o “stress” do mercado que, na semana passada e princípios desta, foi caracterizado por uma verdadeira corrida às bombas, perante uma especulação sobre uma suposta iminência de subida dos preços dos produtos petrolíferos.
Dizemos que se trata de uma disponibilidade volátil, porque de tudo quanto se sabe o futuro vai depender da continuidade ou não da instabilidade que se regista na zona do Médio Oriente, sobretudo no estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 30 por cento da demanda de petróleo no mercado internacional.
Por outra, caso a guerra prevaleça, a situação do mercado do crude vai viver momentos de grande agitação, caracterizado pela escassez o que, naturalmente, poderá provocar a escalada de preços. Trata-se de um cenário indesejável particularmente para países vulneráveis como Moçambique que importam derivados, ou seja, produtos refinados, portanto, mais caros.
Significa que diferentemente do cenário actual em que o combustível que chega aos portos moçambicanos resulta de encomendas feitas antes da eclosão da guerra movida por Israel e Estados Unidos da América contra o Irão, caso a guerra continue, Moçambique terá de adquirir produtos cotados na actual tabela, muito acima da praticada há dois meses.
Neste contexto, a médio prazo, o principal desafio de Moçambique será de garantir a resiliência do sistema de abastecimento. É que a dependência de importações torna o país vulnerável a choques externos, exigindo uma estratégia mais robusta de gestão de reservas e diversificação de fornecedores.
Para além disso, a actual capacidade de armazenamento e distribuição, testada em momentos de pico, poderá revelar-se insuficiente perante uma crise prolongada.
Outrossim, a pretensão de controlo sugerida pelas autoridades deve ser acompanhada de transparência e pedagogia, evitando alarmismos, prevenindo também reacções impulsivas dos consumidores.
Paralelamente, torna-se ainda um imperativo acelerar investimentos em infra-estruturas de armazenamento, aumentar a capacidade de reservas estratégicas e explorar acordos comerciais que garantam fornecimento em condições estáveis.
De igual modo, a aposta em fontes de energia alternativas e valorização do gás natural nacional pode reduzir, gradualmente, a dependência de combustíveis importados.
Aliás, as receitas do gás natural, que já atingem centenas de milhões de dólares, mostram que o país dispõe de recursos que podem ser canalizados para fortalecer a sua soberania energética. A gestão criteriosa destes fundos, incluindo o papel do Fundo Soberano, será determinante para transformar riqueza potencial em segurança efectiva.
É, portanto, neste contexto que Moçambique se encontra num dilema: entre a tranquilidade momentânea assegurada pelos “stocks” e a necessidade urgente de se preparar para um futuro incerto. Assim, antecipar, planificar e agir com visão estratégica serão a chave para enfrentar os desafios que se avizinham.