IDASSE TEMBE (1955-2026): O pintor plástico que soube ser outras coisas

LUCAS MUAGA

IDASSE Ekson Malendza Tembe não foi apenas artista plástico. Foi um multi-artista que actuou em várias áreas, entre elas o teatro e a literatura. E, devido ao seu talento, dedicação e amor às artes visuais, tornou-se incontornável para a academia.

Falecido no dia 16, vítima de doença, no Hospital Central de Maputo, e nascido a 1 de Julho de 1955, no vale do Infulene, província de Maputo, desde cedo interessou-se pelas artes. Começou a apaixonar-se pelo desenho nos tempos de iniciação escolar e até a data da sua morte nutria o gosto pelas artes visuais.

Entretanto, a sua polivalência fez com que abraçasse, simultaneamente, outras áreas, como se destacou, na segunda-feira, no átrio do município de Maputo, no velório, antes de o seu corpo ser levado ao Crematório Hindu, no Cemitério de Lhanguene.

No teatro – talvez poucos saibam – Idasse tinha 23 anos quando co-fundou a Companhia Teatro Guezi e participou, como actor, na primeira peça do grupo, intitulada “A Partilha da África”.

“Compomos o grupo após a independência com actores oriundos dos bairros das Mahotas, Chamanculo, Maxaquene e 25 de Junho”, lembrou-se Fernando Naftal, para quem Idasse foi um dos actores mais activos do grupo com mais de quatro décadas de existência.

O teatro é, entretanto, apenas um dos exemplos da sua multidisciplinaridade. Era também um amante das letras até ao ponto de se filiar à Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), desde os seus primeiros momentos. Fez parte da revista “Charrua”, considerada percursora da literatura moçambicana.

É por essa razão que o escritor Marcelo Panguana, em nome da AEMO, metaforizou a morte de Idasse, referindo que o artista apanhara um comboio para a liberdade, o mesmo que levou, tempos atrás, poetas como Eduardo White e Jaime Santos para o outro lado da vida.

Panguana conta que quase sempre que se emprestou à literatura, fez do desenho e da pintura a sua arma principal. Não se cansou de ler a sociedade usando a sua inesgotável criatividade.

“Sem nunca ter escrito um livro sequer, tornou-se poeta de uma forma peculiar, concebendo as capas de diversas obras literárias que conceituaram os pensadores dentro e fora do país”, conta.

Falando do seu trabalho literário, sem sair das artes plásticas, é inevitável mencionar o seu contributo para a literatura infanto-juvenil através, sobretudo, da Escola Portuguesa de Moçambique-Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP).

Foi nesta colaboração que saiu, em 2025, um dos últimos trabalhos por ele ilustrados, o infanto-juvenil “Quem Ensinou a Avó a Contar Estórias”, que marca a estreia, neste universo, do escritor Nelson Lineu. Ainda este ano, a obra conquistou o Prémio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil, dinamizado pela Associação Kulemba.

“Ele estava feliz com o resultado (o livro e seus sucessos) e eu mais ainda”, recorda-se Lineu que, como professor de Filosofia e História da Arte, na Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV), sente-se no “dever ainda elevado de dar a conhecer a sua obra”.

O livro “Quem Ensinou a Avó a Contar Estórias” tem a particularidade de não apresentar obras directamente inspiradas no enredo, como acontece em muitos  infanto-juvenis. Apresenta parte dos trabalhos pintados por Idasse ao longo da carreira, tornando-se uma ferramenta para estudar e compreender melhor o artista. Além desta narrativa, ilustrou obras de nomes como Marcelo Panguana, Eduardo White, Juvenal Bucuane, Luís Carlos Patraquim, entre outros.

Voltando a Marcelo Panguana, o escritor lembra que um pouco depois da independência, proclamada a 25 de Junho de 1975, houve um período em que se tentava aliar a arte à política na reconstrução do país. Foi nessa época que Idasse, o artista plástico que também soube ser outras coisas, “esteve presente em quase todas as frentes”, abraçando áreas tão distintas como cinema, dança e cerâmica. Trabalhou no Instituto Nacional de Cinema, onde esteve ligado à criação do Departamento de Arte, e era membro da Associação Moçambicana de Fotografia.

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