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Infância interrompida por imperativos de sobrevivência

Por Jornal Notícias
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LEOVIGILDO DA CRUZ

AOS 16 anos, E. Nhate percorre, diariamente, vários quilómetros pelas artérias da cidade de Maputo, empurrando uma carrinha de mão, vulgarmente conhecida por “txova”, carregada de lanho. Natural de Chibuto, província de Gaza, chegou à capital em 2022, depois de a família deixar de ter condições para assegurar o seu sustento.

Vive no bairro da Mafalala, em casa de um conhecido da família que, segundo contou, prometeu ajudá-lo a conquistar alguma autonomia na capital. Deixou de estudar na 7.ª classe e passou a dedicar os dias à venda ambulante de lanho e côco e, ocasionalmente, laranjas.

Explicou que compra o produto no bairro de Jardim e segue a pé para diferentes pontos da cidade, sobretudo a zona baixa, nas avenidas 25 de Setembro, Guerra Popular e 10 de Novembro, à procura de clientes. O dinheiro obtido ajuda nas despesas da casa onde vive e permite-lhe enviar algum valor aos familiares em Chibuto.

“Saio cedo de casa e volto quando termino de vender. Há dias em que vendo quase tudo, mas também acontece voltar com a carrinha quase cheia. Quando isso acontece, no dia seguinte, procuro outros lugares. O mais importante é conseguir algum dinheiro para as despesas essenciais”, contou.

A realidade encontrada em E. Nhate é partilhada por outros menores observados pelo “Notícias” durante uma ronda pelas principais artérias da capital. No bairro Luís Cabral, M. Cossa, 15 anos, passa os dias a cuidar de uma residência e de uma criança de quatro anos. Proveniente de Inharrime, em Inhambane, vive em casa de um familiar, enquanto os proprietários deslocam-se, diariamente, ao trabalho.

É a filha mais velha e estudou até à 8.ª classe, tendo interrompido a formação por falta de condições. Contou que pelo trabalho doméstico recebe cinco mil meticais por mês, valor enviado à mãe viúva e dois irmãos, residentes na sua terra natal.

Relatou que a decisão de deixar a escola esteve relacionada com as dificuldades financeiras da família. O rendimento obtido em Maputo tornou-se uma forma de apoiar os familiares, segundo contou, em condições precárias.

“A minha mãe vive com muitas dificuldades e precisa de ajuda para cuidar dos meus irmãos. Por isso, todos os meses separo dinheiro para enviar para casa.Também penso em voltar a estudar quando tiver oportunidade. Por enquanto, preciso de continuar a trabalhar”, revelou.

No terminal do Zimpeto, J. Macuácua, 16 anos, procura passageiros para os transportadores, como “modjeiro”. Natural e residente em Magoanine, começou a trabalhar depois da morte dos pais, há quase dois anos.

Como filho mais velho, passou a cuidar do irmão de 10 anos. Sem apoio regular da família, encontrou no terminal uma forma de obter dinheiro para alimentação e outras necessidades básicas. Disse que algumas pessoas ajudam ocasionalmente, mas os valores recebidos não cobrem todas as despesas.

“Nos períodos de maior procura consigo colectar entre 500 e 700 meticais, enquanto nos momentos de pouco movimento volta para casa com 200. O valor costuma ser pouco, mas ajuda nas despesas de casa”, indicou.

Por seu turno, J. Mangue, 15 anos, passa parte do dia no Alto-Maé, ao longo da Avenida Eduardo Mondlane, a polir viaturas estacionadas na via pública. Residente no Chamanculo, desloca-se diariamente àquela zona com pano, água e produtos para dar brilho aos carros.

Começou a trabalhar depois de o pai sofrer um acidente vascular cerebral, no ano passado, ficando impedido de exercer as suas funções. Com a redução do rendimento familiar, passou a trabalhar para ajudar nas despesas de casa.

O dinheiro conseguido, segundo contou, é entregue à família para a compra de alimentos e outras necessidades. “Para além disso, o valor também serve para custear as deslocações do meu pai ao Hospital Central de Maputo, onde frequenta sessões de fisioterapia”, disse.

Apesar da actividade, J. Mangue continua ligado à escola. Frequenta a 8.ª classe no curso nocturno da Escola Secundária Francisco Manyanga.

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