LEGACY E A SUA “ANTIMATÉRIA”: Precisava de uma introspecção e de trazer uma nova narrativa

LUCAS MUAGA

HÁ um rapper que, depois de mais de três décadas de carreira, decidiu testar-se. Não que quisesse saber se está crescido, mas, provavelmente, ajudar-se a compreender o seu nível de maturidade. Então, trancou-se no estúdio e materializou as rimas que passou anos a preparar.

O rapper de quem falamos é Legacy, também conhecido como Mestre Sombra. Examinou-se praticamente até ao limite ou quase isso, mesmo acreditando não ter alcançado, ainda, o apogeu. O produtor Daltonyk pode testemunhar estas linhas, pois foi com ele e vários outros convidados que nasceu um dos discos de hip hop mais celebrados de 2026.

O álbum, composto por 15 faixas, foi baptizado como “Antimatéria”, nome que surgiu durante um processo criativo, com o objectivo de criar um som moderno e distinto no cenário do hip hop lusófono.

Em entrevista ao “Notícias” sobre o álbum, Legacy referiu-se à “Antimatéria” como uma metáfora para algo paranormal, com uma força sonora e carga de conteúdo que fogem ao comum e à norma. Ou seja, o amante do rap está diante de “uma transcendência de Legacy com letras mais profundas e, acima de tudo, maturidade artística”.

“Aqui há uma simbiose total: o Daltonyk constrói uma identidade sonora sob medida – sombria, rica e simples em arranjos orgânicos e batidas marcantes –, o que permitiu ao Legacy explorar uma maturidade lírica sem precedentes, mergulhando em temas espirituais, de intervenção social e de reflexão filosófica de forma muito mais estruturada e directa, por outro lado foi possível neste álbum criar uma linhagem mais moderna dando luz a uma sonoridade peculiar”, comentou.

O álbum surge depois de quatro álbuns, nomeadamente “Andando a Pé” (2005), “Caneta e Papel” (2008), “Oficina de Conhecimento” e “Planeta Terra”, todos eles com o grupo Micro 2, por ele fundado em 2004, ao lado do seu parceiro Flash Enccy.

Foi lançado num momento em que Legacy precisava de fazer uma introspecção e construir uma nova narrativa. Sobre isso, prefere deixar com o público a missão de julgar se a intenção justifica o resultado. No entanto, relata que até agora o retorno tem sido positivo, com os amantes do rap a ouvirem as faixas e o CD a abrir portas para vários eventos de hip hop.

Um rapper que não se rende

DEPOIS do disco “Planeta Terra”, o Mestre Sombra reaparece para mostrar que não sabe viver sem música. As faixas de “Antimatéria” revelam, de certo, que o rap é a sua vida, conforme se pode notar ao ouvir faixas como “Nada Me Para”, através da qual o artista expressa um sentimento de resiliência e perseverança.

“Reflecte o processo de ter de auto-financiar o trabalho, manter a integridade artística sem ceder a modismos e continuar a acreditar na mensagem mesmo quando as portas parecem fechadas”, contou.

“Antimatéria” é, neste sentido, um disco sobre um rapper que jamais desiste dos seus sonhos. Há, em “Luz da Ribalta”, outra faixa do disco, um verso em que o rapper fala do sonho de conquistar um Grammy, o mais prestigiado concurso de música global. E tal referência a este galardão serve de luz para onde o hip hop moçambicano pode chegar.

“O Grammy simboliza o topo da ambição e o alcance da excelência. O hip hop moçambicano transborda talento, riqueza linguística e identidade cultural única. O grande obstáculo não é a capacidade artística ou o conteúdo, mas sim a infra-estrutura da indústria, distribuição global e projecção internacional”, explicou.

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