AMÁVEL PINTO
HOJE não falo em nome de outrem. Não falo em nome de uma associação, de uma comunidade ou de qualquer instituição. Hoje, falo apenas em meu nome, porque perdi um amigo, o meu brada.
Partiu um homem que amava a música como poucos neste universo tantas vezes desleal, ingrato e hipócrita. Um homem que viveu a arte da música na sua mais pura plenitude, entregando-lhe a alma, o coração e a própria vida. Um homem que, por amor à música, nem sempre fez as escolhas sociais mais acertadas, mas que pagou muitas vezes um preço demasiado elevado pelas suas decisões. Ainda assim, enfrentou sempre as consequências com dignidade, coragem e alegria, sem jamais perder o brilho do olhar nem a paixão que o movia.
O Paito Tcheco faleceu

E com a sua partida, ficou um vazio impossível de preencher. Não é apenas a sua família que chora — à qual envio as minhas mais sentidas condolências —, choramos todos nós. Porque todos, de uma forma ou de outra, perdemos um pedaço de nós mesmos. Perdemos aquele amigo, aquele companheiro, aquele músico que, sempre que entrava num estúdio ou num ensaio com o seu sorriso malandro, tinha algo para acrescentar, melhorar ou ensinar.
O Paito era daqueles homens raros cuja simples presença tornava tudo melhor.
Foi muito mais do que um colega de trabalho. Foi um companheiro de trincheira. Foi um homem que partilhou um período marcante da minha vida como músico e como ser humano. Foi alguém que soube levantar-me quando eu próprio já não acreditava em mim, que me deu força quando me faltavam as razões para continuar, que me apoiou até ao último segundo e que ficou mais feliz do que eu quando chegaram às nossas mãos as primeiras cópias do meu primeiro disco.
Teria muito para dizer sobre este homem.
Mas também sinto raiva.
E peço a todos que não sejam hipócritas.
Porque, muitos daqueles que hoje choram a sua partida foram os mesmos que permitiram que este homem humilde vivesse durante anos em condições extremas. E não, não foi por escolha dele. Foi consequência do oportunismo, da indiferença e da exploração de quem se aproveitou da sua infinita bondade, da sua generosidade sem limites e da sua incapacidade de dizer não. Muitos ganharam dinheiro à sua custa. Muitos beneficiaram do seu talento, do seu trabalho e do seu coração enorme. E quando chegou a hora de retribuir, viraram-lhe as costas, deixando que a sua situação se agravasse cada vez mais.
Essa verdade também merece ser dita.
Hoje não tenho forças para dizer tudo aquilo que gostaria de dizer.
Hoje quero apenas pegar na minha guitarra, abraçá-la como quem abraça um irmão, e chorar a tua partida.
Porque foi isso que foste para mim: um irmão preto, como tantas vezes nos chamávamos um ao outro.
Adeus, brada.
Até sempre.
Vou ficar por aqui a chorar e a tocar, porque sei que, onde quer que estejas agora, estarias a fazer exactamente o mesmo.
Descansa em paz, brada.



