KÁTIA NASCIMENTO
EU faria uma ode a José Craveirinha.
Conheci José Craveirinha na disciplina de Estudos Africanos, na Universidade de Coimbra, ministrada pela Profª Doutora Doris Wieser, o que muito me orgulha. Aprendi imenso (como diz o português) com ela que, aliás, devo-lhe pelos ensinamentos sobre não só a Literatura Africana, mas também sobre a cultura africana.
Eu faria, sim, uma ode a José Craveirinha.
Apaixonei-me pela Literatura Africana, primeiramente, com o angolano José Luandino Vieira, quando li “A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”. Assim como ele, transportei-me ao Rio Kwanza como se ele eu fosse. Chorei a cada chibatada que levou e morri quando morreu e o seu espírito se libertou do corpo maltratado. Senti-me aliviada. Aprendi imenso com Domingos Xavier.
Mas eu faria uma ode a José Craveirinha.
Muitos outros passaram por mim, naquela disciplina, e eu com cada um tive uma nova sensação, uma nova impressão e sentimento. Com Abdulai Sila e Tony Tcheka, guineenses. Com a cabo-verdiana Orlanda Amarílis. Com a poeta Conceição Lima, de São Tomé. Com os moçambicanos Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa e com a minha (já a chamo minha) queridíssima Paulina Chiziane, e muitos outros.
Mas eu faria mesmo uma ode a José Craveirinha, não só por ser considerado o maior poeta de Moçambique, mas porque a sua poética traz uma tensão enunciativa de vozes silenciadas de uma Moçambique colonizada, sofrida, sobretudo injustiçada, que me atinge de tal forma que tenho vontade de expressar isso em palavras. Assim como ele, que faz da sua poesia uma arma de intervenção, de denúncia e protesto, mostrando a condição humana, rompendo barreiras, tornando-se relevante na organização da libertação e do reconhecimento do africano como sujeito na história, como tantos outros o fizeram. Mas só ele disse: O barco era grande/era grande o barco mas não chegava. /Os porões eram enormes /eram enormes os porões mas não chegavam. /Os beliches eram muitos /eram muitos os beliches mas não chegavam /e o barco encalhou.
Eu faria, sim, uma ode a José Craveirinha.
Mas receio não conseguir sustentar a poesia, como ele bem o fez, e lamento muito. Porém, se eu conseguisse, escreveria, talvez, algo que se referisse ao sentimento que tive desde que li pela primeira vez as suas tão obstinadas palavras poéticas, para decifrar um mundo de injustiças. Não sou a mesma desde então porque é isso que a poesia faz connosco, modifica-nos. Não tem como não mudar algo em nós quando lemos: Mas não desesperem mães /não fiquem tristes pais e amigos e irmãos /não molhem de lágrimas de adeus os lenços brancos /noivas idílicas e entristecidas irmãs./ O barco estava seguro /e segurada estava a carga perdida /sobre os salgados seios eróticos do mar/ porque a verdadeira literatura é essa, que mexe connosco, que nos tira da nossa confortável zona, que nos faz amanhecer acreditando que algo mudou dentro de nós, e que se algo mudou dentro de nós, provavelmente, conseguiremos mudar o mundo.
Eu faria, sim, uma ode a José Craveirinha.
Kátia Nascimento é escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra. kn.katianascimento@gmail.com