QUANDO perdeu a avó, Benedito João, nome fictício de um munícipe residente no bairro Luís Cabral, procurou a morgue anexa ao Hospital Central de Maputo (HCM), para a conservação do corpo.
Deparou-se com cadáveres no chão, alguns dos quais eram arrastados pelos funcionários sem um mínimo de respeito. De seguida, veio um convite para pagar um valor adicional à taxa afixada, de modo a que o seu ente querido não tivesse aquele tipo de tratamento.
Logo veio o choque, afinal para ele não se tratava apenas de um corpo, era a sua avó que por muito tempo enfrentou uma doença e, mesmo com tratamento, acabou por falecer.
“Os funcionários da morgue não respeitam os corpos. Agora tudo é dinheiro. Quem não paga corre o risco de ver o seu ente querido ser tratado como um objecto”, lamenta.
Apesar de este episódio ter acontecido há alguns meses, até hoje as imagens da morgue e tratamento recebido não lhe saem da mente. Conta que a família pagou um valor extra, porque, naquele momento de dor, importava a última imagem da avó.
Condena o comportamento dos funcionários que usam a vulnerabilidade das famílias para fazer cobranças, de modo a cumprirem com o seu trabalho. A dor da família foi minimizada porque contava com o apoio de uma seguradora que custeou o funeral.
O mesmo não aconteceu na família de Nazira Massango, da Matola, que também perdeu a avó este ano. Por não terem um seguro funerário, os parentes tiveram de se unir, cada um tirando o que dispunha para custear os rituais necessários.
“Os meus tios tiveram de contribuir. Também contámos com o apoio de outros parentes e vizinhos que trouxeram dinheiro ou alimentos para a refeição durante o período da preparação do funeral”, narrou.
O terror da perda, segundo Massango, ocorreu na morgue anexa ao HCM. “Foram cobrados 500 meticais ao meu pai por um funcionário, que chegou a dizer que a taxa extra pode chegar a mil meticais para que o corpo seja bem cuidado e encontrado em boas condições no dia das exéquias. Ao ouvir isto, a dor só aumentou”, relembra Nazira Massango.
Ana Santos, residente no Jardim, na cidade de Maputo, que perdeu um irmão, não escapou ao golpe psicológico dos “senhores donos da morgue”.
“Existe uma certa taxa para a conservação do corpo, mas cobraram-nos acima dela”, desabafa.
Para além da conservação do corpo, Santos explica que as despesas de um funeral aumentam, devido ao número de pessoas que participam nas cerimónias. Neste contexto, a sua família teve de repartir as despesas, desde a alimentação ao tratamento dos serviços funerários.“Cada membro contribuiu entre mil e dois mil meticais. Em contexto de infelicidade precisa-se de uma onda de solidariedade. Mas esta não tem sido tão notória entre os que vivem na zona urbana. Por isso, a família é a principal fonte para custear os encargos”, aponta.